"Porquê?" & "Para quê?"

Impõe-se-me, como autor do blogue, dar uma explicação, ainda que breve, do "porquê" e do "para quê" da sua criação. O título já por si diz alguma coisa, mas não o suficiente. E será a partir dele, título, que construirei esse "suficiente". Vamos a isso! Assim:
Dito de dizer, escrever, noticiar, informar, motivar, explicar, divulgar, partilhar, denunciar, tudo aquilo que tenho e penso merecer sê-lo. Feito de fazer, actuar, concretizar, agir, reunir, construir. Um pressupõe e implica, necessariamente, o outro - «de palavras está o mundo cheio». Se muitos & bons discursos ditos, mas poucas ou nenhumas acções que tornem o mundo, um lugar, no mínimo, suportável para se viver, «olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço», então nada feito!!!

«Para bom entendedor meia palavra basta» - meu dito meu feito, palavras e motivo.





























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domingo, 27 de novembro de 2011

mais um ADVENTO e mais uma oportunidade

Eu sublinharia tudo porque tudo quanto aqui abaixo está, palavras & imagens, merecem.

Ao entrarmos no tempo do Advento somos confrontados com uma atitude que este tempo evoca e sugere para o itinerário crente. Não só nestas quatro semanas, mas como proposta contínua para aprendermos a viver a vida entre e o imediato e o que ainda não veio, o instante fugaz e a oportunidade do saboreio, a pressa que nos atravessa e a espera silenciosa daquilo que se aninha no coração mas que se sabe ainda por vir.
A espera gera no interior do coração uma tensão. Que não precisa ser desesperadora. Pode ser uma espera sadia. Se esperamos, deseja-se que o coração se encha daquele bem ou daquele dom que permite ao tempo andar mais devagar. Esperar capacita a nossa atenção. Permite prestar atenção aos detalhes. Ouvir o que o coração sente nesse tempo de expectativa.
Vivemos hoje num tempo em que as pessoas desaprenderam a espera. Não sabemos e não queremos esperar. Desejamos o imediato. O que está pronto. O que pode ser servido e consumido no instante mesmo que a duras penas. Ninguém espera. Esperar enche o coração das pessoas de tédio. Porque precisam estar permanentemente ocupadas ou o coração pode parar. Perdemos a capacidade de esperar.
A nossa incapacidade para a espera, para o caminho demorado, o processo que se faz e conquista, atira-nos tantas vezes para o território da dependência. Tornamo-nos dependentes das necessidades que a todo o custo queremos satisfazer. O tempo da espera é tempo de liberdade. Aprendemos a ser livres com as esperas necessárias e inevitáveis, as impostas tantas vezes, as desejadas, as mais demoradas ou as menos entediantes. Todas elas podem proporcionar-nos caminhos de liberdade. Em que o coração se alarga. E os horizontes abrem-se para além do nosso umbigo.
Aprender dos nossos tempos de espera. Escutar o coração e os sentimentos que nos visitam quando esperar começa a ser tenebroso. Quando aquela pessoa querida não vem. Quando aquele desejo mais íntimo tarda em realizar-se. Quando aquele projeto teima em não sair do papel. Ou quando o aguardar silencioso se converte em alegria transbordante porque se realizou o desejo. O que o coração sente nesses momentos?
O Advento obriga-nos a considerar esta atitude fundamental na nossa vida. Esperamos que o Natal aconteça. Que o mistério de um Deus que vem ao nosso encontro se desvele na vida e nos caminhos que fazemos. Esperar, preparando o coração para que esse encontro tão desejado nos encante e desafie. E nos abra horizontes novos. Esperar Deus que se deixa encontrar e que na simplicidade de um menino nos pede um encantamento sempre maior pela vida. Porque afinal Deus vive no meio de nós. Um menino nos foi dado. E de alegria e de cor encheu-se a terra inteira.
Esperamos. Na esteira de um povo que aguardou silenciosamente que a palavra profética se realizasse. Um longo tempo de espera. Permeado por tantas infidelidades. E também por muitos caminhos felizes. Com Deus no horizonte. Até que um dia esse Deus fez-se Emanuel. Deixou-se encontrar depois de tanta espera.
Podemos viver este tempo de Advento como oportunidade para recuperar a nossa capacidade de esperar. Esperar Deus que vem ao nosso encontro. Preparar o coração e permitir que esta espera silenciosa o aqueça interiormente. Deus vem ao encontro do coração de cada um para nele se deixar acolher. Aconchegar-se na simplicidade e na fragilidade do nosso ser. Podemos fazer do coração humano a manjedoura onde o Emanuel habita. E sairmos desse encontro habitados pelo mistério. O mistério de Deus que também nos deseja e nos espera. Somos desejados de Deus. Deus espera-nos. Somos escolhidos, amados, valiosos. Deus espera que a vida-semente plantada no coração de cada um se desdobre num mar de possibilidades que o caminhar se encarregará de desvendar e realizar.
Podemos igualmente viver este tempo de Advento como espera do outro. Esperar o outro que também nos visita com a sua proximidade, a sua ausência, os seus desconsolos, as suas trivialidades; esperar pelo coração do outro que se manifesta e se retrai no ritmo dos dias. Acolher no coração a espera do outro que se manifesta em desilusão, desconsolo, angústia e perda de sentido da vida e dignidade. Esse acolhimento pode tornar a espera menos difícil de suportar.
Em tempos socialmente instáveis há esperas que deixam o coração do semelhante ainda mais angustiado. A espera do trabalho que não aparece. Do salário que não é suficiente. Da refeição que não chega para todas as bocas. Da ajuda que nem sempre vem. O tempo do Advento obriga-nos a esperar com os desesperados, aqueles a quem a vida deixou de sorrir. Tantos irmãos sem nome que aguardam uma companhia e um conforto para a noite fria que lhe invade o coração.
Esperar em tempo de Advento. Possibilidade de alargar os horizontes do coração e da vida toda. A espera por um Deus silencioso e terno-menino faz com que cuidemos do tempo das esperas. Afinal a vida toda é só espera. Ativa, vigilante, comprometida, singular. Como singular e feliz o encontro entre Deus e o coração humano que encheu de sentido tantas esperas e deixou no coração de cada pessoa o desejo de encontrar Aquele que a todos espera para a festa da alegria.

P. Manuel Afonso de Sousa, CSh
Diretor espiritual do Seminário Conciliar de S. Pedro e S. Paulo, Braga

http://www.snpcultura.org/id_advento_2008_slides.html

© SNPC | 26.11.11

domingo, 2 de outubro de 2011

Porque hoje é DOMINGO (2 de Outubro de 2011)...

... as leituras convidam-nos, como sempre, a pensar. E não só. Porquê?
«Isaías, filho de Amós, exerceu o seu ministério profético em Jerusalém, no reino de Judá, durante a segunda metade do séc. VIII a.C. (de acordo com os seus oráculos, o profeta foi chamado por Deus ao ministério profético por volta de 740-739 a.C.; e os seus oráculos vão até perto de 700 a.C.). A sua pregação abarca, portanto, um arco de tempo relativamente longo e abrange vários reinados.
Isaías – como os outros profetas – não fala de realidades abstractas e intangíveis. A sua pregação refere-se a acontecimentos concretos e toca a realidade da vida, dos problemas, das inquietações, das esperanças dos homens do seu tempo. Para perceber a sua mensagem temos, portanto, de situá-la na época e na realidade histórica que o profeta conhece e sobre a qual é chamado por Deus a pronunciar-se.A primeira fase do ministério de Isaías desenrola-se durante o reinado de Jotam (740-734 a.C.). É uma época de relativa tranquilidade política, em que Judá se mantém afastado da cena internacional e das jogadas políticas das super-potências. Tudo parece correr bem, num clima de paz generalizada.
No entanto, o olhar crítico do profeta detecta uma realidade distinta. Internamente, a sociedade de Judá está marcada por grandes injustiças e arbitrariedade. Os poderosos exploram os mais débeis, os juízes deixam-se corromper, os latifundiários deixam-se dominar pela cobiça e inventam esquemas legais para se apropriar dos bens dos mais pobres, os governantes oprimem os súbditos, as senhoras finas de Jerusalém vivem no luxo e na futilidade, num desrespeito absoluto pelas necessidades e carências dos mais pobres. Em termos religiosos, o culto floresce numa abundância inaudita de práticas de piedade e de abundantes e solenes manifestações religiosas; no entanto, todo esse fausto cultural é incoerente e mentiroso, pois não resulta de uma verdadeira adesão a Jahwéh, mas de uma tentativa de acalmar as consciências e de “comprar” Deus. Para o profeta, Jerusalém deixou de ser a esposa fiel, para converter-se numa prostituta (cf. Is 1,21-26); ou, dito de outra forma, a “vinha” cuidada por Deus só produz frutos amargos e não os frutos bons (de justiça e de amor) pedidos a quem vive envolvido no ambiente da Aliança.
A mensagem de Isaías neste período encontra-se nos capítulos 1-5 do seu livro. O texto que hoje nos é proposto é um dos textos mais emblemáticos deste período.

Será que isso aconteceu só no passado? - pergunto.

(...) Nos nossos dias, o “sangue derramado” das vítimas da violência, do terrorismo, das guerras religiosas, dos sistemas que geram morte e sofrimento continua a tingir a nossa história; os “gritos de horror” de tantos homens e mulheres privados dos direitos mais elementares, torturados, marginalizados, excluídos, impedidos de ter acesso a uma vida minimamente humana, continuam a escutar-se na Europa, na Ásia, na África, nas Américas… Qual o nosso papel, no meio de tudo isto? Podemos calar-nos, num silêncio cúmplice e alienado, diante do drama de tantos irmãos condenados à morte? O que podemos fazer para que a “vinha” de Deus produza outros frutos?
(...) Paulo convida os crentes a terem em conta, na sua vida, esses valores humanos que todos os homens apreciam e amam: a verdade, a justiça, a honradez, a amabilidade, a tolerância, a integridade… Um cristão tem de ser, antes de mais, uma pessoa íntegra, verdadeira, leal, honesta, responsável, coerente. Ouvimos, algumas vezes, dizer que “os que vão à igreja são piores do que os outros”. Em parte, a expressão serve, sobretudo, a muitos dos chamados “cristãos não praticantes” para justificar o facto de não irem à igreja; mas não traduzirá, algumas vezes, o mau testemunho que alguns cristãos dão quanto à vivência dos valores humanos? Quem contacta as recepções das nossas igrejas, encontra sempre simpatia, compreensão, amabilidade, verdade, coerência? A forma como Paulo propõe aos seus cristãos os mesmos valores que constavam das listas de valores dos moralistas gregos da sua época, deve convidar-nos a reflectir sobre a nossa relação com os valores do mundo que nos rodeia e sobre a forma como os aceitamos e integramos na nossa vida. Não podemos esconder-nos atrás da nossa muralha fortificada e rejeitar, em bloco, tudo aquilo que o mundo de hoje nos proporciona, como se fosse algo de mau e pecaminoso. O mundo em que vivemos tem valores muito bonitos e sugestivos, que nos ajudam a crescer de uma forma sã e equilibrada e a integrar uma realidade rica em desafios e esperanças. O que é necessário é saber discernir, de entre todos os valores que o mundo nos apresenta, aquilo que nos torna mais livres e mais felizes e aquilo que nos torna mais escravos e infelizes, aquilo que não belisca a nossa fé e aquilo que ameaça a essência do Evangelho…
... As nossas comunidades cristãs e religiosas são constituídas por homens e mulheres que se comprometeram com o Reino e que trabalham na “vinha” do Senhor. Deviam, portanto, produzir frutos bons e testemunhar diante do mundo, em gestos de amor, de acolhimento, de compreensão, de misericórdia, de partilha, de serviço, a realidade do Reino que Jesus Cristo veio propor. É isso que acontece, ou limitamo-nos a ter muitos grupos paroquiais, a preparar organigramas impressionantes da dinâmica comunitária, a construir espaços físicos amplos e confortáveis, a recitar a liturgia das horas, a produzir liturgias solenes, faustosas, imponentes… e completamente desligadas da vida?»
«A história repete-se», ou melhor, nunca deixou de se repetir, infelizmente. Já lá vão 2751 anos. Chega?