"Porquê?" & "Para quê?"

Impõe-se-me, como autor do blogue, dar uma explicação, ainda que breve, do "porquê" e do "para quê" da sua criação. O título já por si diz alguma coisa, mas não o suficiente. E será a partir dele, título, que construirei esse "suficiente". Vamos a isso! Assim:
Dito de dizer, escrever, noticiar, informar, motivar, explicar, divulgar, partilhar, denunciar, tudo aquilo que tenho e penso merecer sê-lo. Feito de fazer, actuar, concretizar, agir, reunir, construir. Um pressupõe e implica, necessariamente, o outro - «de palavras está o mundo cheio». Se muitos & bons discursos ditos, mas poucas ou nenhumas acções que tornem o mundo, um lugar, no mínimo, suportável para se viver, «olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço», então nada feito!!!

«Para bom entendedor meia palavra basta» - meu dito meu feito, palavras e motivo.





























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sábado, 31 de dezembro de 2011

O tempo, a crise e a transcendência...

por ANSELMO BORGES

Enigma maior é o do tempo. Não o tempo meteorológico, mas aquele tempo que nos faz envelhecer e desaparecer, morrer os nossos pais e amigos, aqueles a quem mais queremos, que tudo devora e anula. Naquele seu abismo devorador, tudo se despenha, e torna-se como se não tivesse sido.
Já Santo Agostinho se abismava perante o enigma: o que é o tempo? Eu sei. Mas, se alguém me perguntar e eu quiser responder, já não sei. Porque o passado já não é, o futuro ainda não é, e o presente nunca se capta. Ah, se soubéssemos o que é o tempo, teríamos talvez descoberto o mistério de ser e do ser.
Mas é decisivo perceber que já os gregos apresentaram dois grupos semânticos fundamentais referentes ao conceito do tempo: chrónos, o tempo quantitativo e linear, para significar o fluir inelutável do tempo, sem qualquer possibilidade de intervenção humana, e kairós, incidindo sobre o tempo qualitativo, enquanto crise e enquanto oportunidade, para referir aqueles momentos no tempo em que o homem é convocado a uma intervenção decisiva. Chrónos devora os seus próprios filhos, segundo o mito; kairós é a oportunidade oferecida aos homens para a viragem e a conversão, e tem também a ver com aquela experiência de pontos no tempo tangidos pela eternidade - pense-se na experiência da beleza, do amor, da música, da criação -, quando o tempo na sua voragem fica suspenso e mesmo anulado. A experiência da transcendência!
No termo de mais um ano, de forma mais intensa, é o enigma do tempo que outra vez nos visita, na sua dupla face: o tempo cronológico (devorador) e o tempo kairológico (criador).
Quantos neste ano deixaram de cá estar! Um fim de ano qualquer também já cá não estaremos.
Entre tantos que partiram - partiram para onde? (no domínio da ultimidade, a linguagem atraiçoa-nos sempre)-, fica aí, gigante na luta pela liberdade, no humanismo, na fundura e na altura do pensar político, Vaclav Havel.
É iniludível o seu pensar precisamente sobre o tempo, a crise e a transcendência, como, entre nós, chamou a atenção Jorge Almeida Fernandes.
O que provoca a crise maior do nosso tempo senão a vivência do tempo apenas como imediatidade de sucesso, produção e consumo, esquecendo a dimensão moral, metafísica e trágica da existência? Lá estava Havel a avisar em 2007: "O Ocidente democrático perdeu a capacidade de proteger e cultivar os valores que não cessa de reclamar como seus. O pragmatismo dos políticos que querem ganhar futuras eleições, reconhecendo como autoridade suprema a vontade e os humores de uma caprichosa sociedade de consumo, impede esses mesmos políticos de assumirem a dimensão moral, metafísica e trágica da sua própria linha de acção. Uma nova divindade tende a suplantar o respeito pelo horizonte metafísico da vida humana: o ideal de uma produção e de um consumo incessantemente crescentes."
Tenho aqui repetido que, numa sociedade sem transcendência nem eternidade, o tempo não faz texto, pois tudo se dissolve no aqui e agora, na pura imediatidade. E isso, claro, tem consequências até na economia. Vaclav Havel constatou: "Estamos a viver na primeira civilização global", acrescentando: "Mas também vivemos na primeira civilização ateia, isto é, numa civilização que perdeu a conexão com o infinito e a eternidade." Consequências: uma civilização "obstinada em perseguir objectivos a curto prazo", "o que é importante é que um investimento seja rentável em 10 ou 15 anos" e não os efeitos dentro de 100 anos. Depois, "o orgulho", a hybris dos gregos. Por isso, suspeitava que a "nossa civilização caminha para a catástrofe", a não ser que cure "a sua miopia e a sua estúpida convicção de omnisciência, o seu desmesurado orgulho."
Achava que "o desenvolvimento desenfreado de uma civilização deliberadamente ateia deve alarmar-nos". Considerava-se apenas meio crente, mas com "a certeza de que tudo no mundo não é apenas efeito do acaso" e convencido de que "há um ser, uma força velada por um manto de mistério. E é o mistério que me fascina." Afinal, "a transcendência é a única alternativa à extinção."

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Os trabalhos mais felicitantes...

... por ANSELMO BORGES

O que é que verdadeiramente queremos? Ser felizes, não? Mas, quando começamos a tentar definir o que é a felicidade, essa definição não se encontra. É um não sei quê, que tem a ver com alegria, realização, bem-estar, vida preenchida, bem-aventurança. De qualquer forma, é o contrário de infelicidade e desgraça.
Kant foi dizendo que a felicidade é "a satisfação de todas as nossas tendências e inclinações", ao mesmo tempo que preveniu que isto não é senão "um ideal da imaginação". De facto, a felicidade coincide com o Sumo Bem na plenitude, de que nesta Terra apenas poderemos encontrar antecipações. Tendemos para ser de modo pleno, precisamente para a eudaimonia, a felicidade, como lhe chamou Aristóteles, e que Andrés Torres Queiruga caracterizou como aquele "estado no qual, sem contradições, se realizariam todas as potencialidades, se manifestariam todas as latências e se cumpririam todos os desejos e aspirações que habitam o coração humano, individual, colectivo e cósmico". Mas a felicidade perfeita não é deste mundo. Há instantes de felicidade, aqueles instantes tocados pela eternidade e que anulam o tempo.
Aliás, para a felicidade, são necessárias muitas condições: saúde, prazer, algum dinheiro, amigos, um trabalho realizante, uma família estável, um projecto de vida, a acção, a justiça, o conhecimento, o reconhecimento. Claro, o amor. A religião, na medida em que se refere ao sentido, e sentido último, pode ser decisiva. Santo Agostinho dizia a Deus: "O nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Ti."
De todo o modo, ao contrário do pensamento corrente, não é o ter que decide da felicidade. Neste sentido, é significativo que a famosa revista "Forbes" tenha publicado os resultados de um estudo levado a cabo pela National Organization for Research, da Universidade de Chicago, segundo o qual, entre os trabalhadores mais felizes do mundo, se encontram os padres e pastores protestantes, os bombeiros, os fisioterapeutas, os escritores...
A ordem é exactamente esta: clérigos (sacerdotes católicos e pastores protestantes), bombeiros, fisioterapeutas, escritores, educadores do ensino especial, professores, artistas, psicólogos, agentes financeiros, engenheiros de operações.
Segundo os estudiosos, o que une estas profissões tão diversas é a baixa remuneração e a ligação e entrega aos outros. A confirmar esta opinião está que são as profissões com menos contacto humano que trazem mais insatisfação. Assim, entre os dez trabalhos menos felicitantes e até mais odiados, encontram-se postos de direcção e salários elevados: directores de tecnologias da informação, directores de vendas e marketing, produtores/managers, peritos de Web, técnicos especialistas, técnicos de electrónica, secretários jurídicos, analistas de suportes técnicos, maquinistas, gerentes de marketing.
Nestes tempos de tantas dificuldades para tantos, estes resultados dão que pensar.
Já agora, tendo apresentado estas duas listas de top 10, permita-se-me mais uma lista com 10, mas, desta vez, com os dez mandamentos das relações humanas, segundo Alejandro Córdoba. Tornariam a nossa vida mais fácil: 1. Fala com as pessoas. Nada há tão agradável e estimulante como uma palavra de saudação cordial. 2. Sorri para as pessoas. 3. Chama as pessoas pelo seu nome. Para quase todas, a música mais suave é ouvir o seu próprio nome. 4. Sê amigo e prestável. Se queres ter amigos, sê amigo. 5. Sê cordial. Fala e age com toda a sinceridade: tudo o que fazes fá-lo com gosto. 6. Interessa-te sinceramente pelos outros. Recorda que sabes o que sabes, mas que não sabes o que outros sabem. 7. Sê generoso a elogiar e cauteloso a criticar. Os líderes elogiam. Sabem animar, dar confiança e elevar os outros. 8. Aprende a captar os sentimentos dos outros. Em toda a controvérsia, há três ângulos: o teu, o do outro e o do que só vê o seu com demasiada certeza. 9. Preocupa-te com a opinião dos outros. São três as atitudes de autêntico líder: ouvir, aprender e saber elogiar. 10. Ama e depois age. É transversal a todos os anteriores e é a maneira mais eficaz de dar testemunho e evangelizar.