"Porquê?" & "Para quê?"

Impõe-se-me, como autor do blogue, dar uma explicação, ainda que breve, do "porquê" e do "para quê" da sua criação. O título já por si diz alguma coisa, mas não o suficiente. E será a partir dele, título, que construirei esse "suficiente". Vamos a isso! Assim:
Dito de dizer, escrever, noticiar, informar, motivar, explicar, divulgar, partilhar, denunciar, tudo aquilo que tenho e penso merecer sê-lo. Feito de fazer, actuar, concretizar, agir, reunir, construir. Um pressupõe e implica, necessariamente, o outro - «de palavras está o mundo cheio». Se muitos & bons discursos ditos, mas poucas ou nenhumas acções que tornem o mundo, um lugar, no mínimo, suportável para se viver, «olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço», então nada feito!!!

«Para bom entendedor meia palavra basta» - meu dito meu feito, palavras e motivo.





























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domingo, 10 de junho de 2012

PALAVRA de DOMINGO: há que contextualizá-la para bem a entender e melhor vivê-la!!!

LEITURA IGen 3, 9-15
Leitura do Livro do Génesis
Depois de Adão ter comido da árvore,
o Senhor Deus chamou-o e disse-lhe: «Onde estás?»
Ele respondeu:
«Ouvi o rumor dos vossos passos no jardim
e, como estava nu, tive medo e escondi-me».
Disse Deus:
«Quem te deu a conhecer que estavas nu?
Terias tu comido dessa árvore, da qual te proibira comer?»
Adão respondeu:
«A mulher que me destes por companheira
deu-me do fruto da árvore e eu comi».
O Senhor Deus perguntou à mulher:
«Que fizeste?»
E a mulher respondeu:
«A serpente enganou-me e eu comi».
Disse então o Senhor Deus à serpente:
«Por teres feito semelhante coisa,
maldita sejas entre todos os animais domésticos
e todos os animais selvagens.
Hás-de rastejar e comer do pó da terra
todos os dias da tua vida.
Estabelecerei inimizade entre ti e a mulher,
entre a tua descendência e a descendência dela.
Ela há-de atingir-te na cabeça
e tu a atingirás no calcanhar».
AMBIENTE
O relato jahwista de Gn 2,4b-3,24 sobre as origens da vida e do pecado (ao qual pertence o texto que hoje nos é proposto como primeira leitura) é, de acordo com a maioria dos comentadores, um texto do séc. X a.C., que deve ter aparecido em Judá na época do rei Salomão. Apresenta-se num estilo exuberante e vivo e parece ser obra de um catequista popular, que ensina recorrendo a imagens sugestivas, coloridas e fortes.
Não podemos, de forma nenhuma, ver neste texto uma reportagem jornalística de acontecimentos passados na aurora da humanidade. A finalidade do autor não é científica ou histórica, mas teológica: mais do que ensinar como o mundo e o homem apareceram, ele quer dizer-nos que na origem da vida e do homem está Jahwéh e que na origem do mal e do pecado estão as opções erradas do homem. Trata-se, portanto, de uma página de catequese.
Esta longa reflexão sobre as origens da vida e do mal que desfeia o mundo está estruturada num esquema tripartido, com duas situações claramente opostas e uma realidade central que aparece como charneira e ao redor da qual giram a primeira e a terceira parte… Na primeira parte (cf. Gn 2,4b-25), o autor descreve a criação do paraíso e do homem; apresenta a criação de Deus como um espaço ideal de felicidade, onde tudo é bom e o homem vive em comunhão total com o criador e com as outras criaturas. Na segunda parte (cf. Gn 3,1-7), o autor descreve o pecado do homem e da mulher; mostra como as opções erradas do homem introduziram na comunhão do homem com Deus e com o resto da criação factores de desequilíbrio e de morte. Na terceira parte (cf. Gn 3,8-24), o autor apresenta o homem e a mulher confrontados com o resultado das suas opções erradas e as consequências que daí advieram, quer para o homem, quer para o resto da criação.
Na perspectiva do catequista jahwista, Deus criou o homem para a felicidade… Então, pergunta Ele: como é que hoje conhecemos o egoísmo, a injustiça, a violência que desfeiam o mundo? A resposta é: algures na história humana, o homem que Deus criou livre e feliz fez escolhas erradas e introduziu na criação boa de Deus dinamismos de sofrimento e de morte.
O nosso texto pertence à terceira parte do tríptico. As personagens intervenientes são Deus (que “passeia no jardim à brisa do dia” – vers. 8a), Adão e Eva (que se esconderam de Deus por entre o arvoredo do jardim – vers. 8b).
MENSAGEM
A nossa leitura começa com a “investigação” de Deus… Antes de proferir a sua acusação, Deus – o acusador e juiz – investiga, descobre e estabelece os factos.
Primeira pergunta feita por Deus ao homem: “onde estás?” A resposta do homem é já uma confissão da sua culpabilidade: “ouvi o rumor dos vossos passos no jardim e, como estava nu, tive medo e escondi-me” (vers. 9-10). A vergonha e o medo são sinal de uma perturbação interior, de uma ruptura com a anterior situação de inocência, de harmonia, de serenidade e de paz. Como é que o homem chegou a esta situação? Evidentemente, desobedecendo a Deus e percorrendo caminhos contrários àqueles que Deus lhe havia proposto. A resposta do homem trai, portanto, o seu segredo e a sua culpa.
Depois desta constatação, a segunda pergunta feita por Deus ao homem é meramente retórica: “terias tu comido dessa árvore, da qual te proibira de comer?” (vers. 11). A árvore em causa – a “árvore do conhecimento do bem e do mal” – significa o orgulho, a auto-suficiência, o prescindir de Deus e das suas propostas, o querer decidir por si só o que é bem e o que é mal, o pôr-se a si próprio em lugar de Deus, o reivindicar autonomia total em relação ao criador. A situação do homem, perturbado e em ruptura, é já uma resposta clara à pergunta de Deus… É evidente que o homem “comeu da árvore proibida” – isto é, escolheu um caminho de orgulho e de auto-suficiência em relação a Deus. Daí a vergonha e o medo.
Ao defender-se, o homem acusa a mulher e, ao mesmo tempo, acusa veladamente o próprio Deus pela situação em que está (“a mulher que me deste por companheira deu-me do fruto da árvore e eu comi” – vers. 12). Adão representa essa humanidade que, mergulhada no egoísmo e na auto-suficiência, esqueceu os dons de Deus e vê em Deus um adversário; por outro lado, a resposta de Adão mostra, igualmente, uma humanidade que quebrou a sua unidade e se instalou na cobardia, na falta de solidariedade, no ódio. Escolher caminhos contrários aos de Deus não pode senão conduzir a uma vida de ruptura com Deus e com os outros irmãos.
Vem, depois, a “defesa” da mulher: “a serpente enganou-me e eu comi” (vers. 13). Entre os povos cananeus, a serpente estava ligada aos rituais de fertilidade e de fecundidade. Os israelitas deixavam-se fascinar por esses cultos e, com frequência, abandonavam Jahwéh para seguir os rituais religiosos dos cananeus e assegurar, assim, a fecundidade dos campos e dos rebanhos. Na época em que o autor jahwista escreve, a serpente era, pois, o “fruto proibido”, que seduzia os crentes e os levava a abandonar a Lei de Deus. A “serpente” é, neste contexto, um símbolo literário de tudo aquilo que afastava os israelitas de Jahwéh. A resposta da “mulher” confirma tudo aquilo que até agora estava sugerido: é verdade, a humanidade que Deus criou prescindiu de Deus, ignorou as suas propostas e enveredou por outros caminhos. Achou, no seu egoísmo e auto-suficiência, que podia encontrar a verdadeira vida à margem de Deus, prescindindo das propostas de Deus.
Diante disto, não são precisas mais perguntas. Está claramente definida a culpa de uma humanidade que pensou poder ser feliz em caminhos de egoísmo e de auto-suficiência, totalmente à margem dos caminhos que foram propostos por Deus.
Que tem Deus a acrescentar? Pouco mais, a não ser condenar como falsos e enganosos esses cultos e essas tentações que seduziam os israelitas e os colocavam fora da dinâmica da Aliança e dos mandamentos (vers. 14-15). O nosso catequista jahwista sabe que a serpente é um animal miserável, que passa toda a sua existência mordendo o pó da terra. O autor vai servir-se deste dado para pintar, plasticamente, a condenação radical de tudo aquilo que leva os homens a afastar-se dos caminhos de Deus e a enveredar por caminhos de egoísmo e de auto-suficiência.
O que é que significa a inimizade e a luta entre a “descendência” da mulher e a “descendência” da serpente? Provavelmente, o autor jahwista está, apenas, a dar uma explicação etiológica (uma “etiologia” é uma tentativa de explicar o porquê de uma determinada realidade que o autor conhece no seu tempo, a partir de um pretenso acontecimento primordial, que seria o responsável pela situação actual) para o facto de a serpente inspirar horror aos humanos e de toda a gente lhe procurar “esmagar a cabeça”; mas a interpretação judaica e cristã viu nestas palavras uma profecia messiânica: Deus anuncia que um “filho da mulher” (o Messias) acabará com as consequências do pecado e inserirá a humanidade numa dinâmica de graça.
Atenção: o autor sagrado não está a falar de um pecado cometido nos primórdios da humanidade pelo primeiro homem e pela primeira mulher; mas está a falar do pecado cometido por todos os homens e mulheres de todos os tempos… Ele está apenas a ensinar que a raiz de todos os males está no facto de o homem prescindir de Deus e construir o mundo a partir de critérios de egoísmo e de auto-suficiência. Não conhecemos bem este quadro?
ACTUALIZAÇÃO
Um dos mistérios que mais questiona os nossos contemporâneos é o mistério do mal… Esse mal que vemos, todos os dias, tornar sombria e deprimente essa “casa” que é o mundo, vem de Deus, ou vem do homem? A Palavra de Deus responde: o mal nunca vem de Deus… Deus criou-nos para a vida e para a felicidade e deu-nos todas as condições para imprimirmos à nossa existência uma dinâmica de vida, de felicidade, de realização plena.
O mal resulta das nossas escolhas erradas, do nosso orgulho, do nosso egoísmo e auto-suficiência. Quando o homem escolhe viver orgulhosamente só, ignorando as propostas de Deus e prescindindo do amor, constrói cidades de egoísmo, de injustiça, de prepotência, de sofrimento, de pecado… Quais os caminhos que eu escolho? As propostas de Deus fazem sentido e são, para mim, indicações seguras para a felicidade, ou prefiro ser eu próprio a fazer as minhas escolhas, à margem das propostas de Deus?
• O nosso texto deixa também claro que prescindir de Deus e caminhar longe d’Ele, leva o homem ao confronto e à hostilidade com os outros homens e mulheres. Nasce, então, a injustiça, a exploração, a violência. Os outros homens e mulheres deixam de ser irmãos, para passarem a ser ameaças ao próprio bem-estar, à própria segurança, aos próprios interesses. Como é que eu me situo face aos meus irmãos? Como é que eu me relaciono com aqueles que são diferentes, que invadem o meu espaço e interesses, que me questionam e interpelam?
• O nosso texto ensina, ainda, que prescindir de Deus e dos seus caminhos significa construir uma história de inimizade com o resto da criação. A natureza deixa de ser, então, a casa comum que Deus ofereceu a todos os homens como espaço de vida e de felicidade, para se tornar algo que eu uso e exploro em meu proveito próprio, sem considerar a sua dignidade, beleza e grandeza. O que é que a criação de Deus significa para mim: algo que eu posso explorar de forma egoísta, ou algo que Deus ofereceu a todos os homens e mulheres e que eu devo respeitar e guardar com amor?

EVANGELHOMc 3, 20-35
Naquele tempo,
Jesus chegou a casa com os seus discípulos.
E de novo acorreu tanta gente,
de modo que nem sequer podiam comer.
Ao saberem disto, os parentes de Jesus
puseram-se a caminho para O deter,
pois diziam: «está fora de Si».
Os escribas que tinham descido de Jerusalém diziam:
«Está possesso de Belzebu,
e ainda:
«É pelo chefe dos demónios que Ele expulsa os demónios».
Mas Jesus chamou-os e começou a falar-lhes em parábolas:
«Como pode Satanás expulsar Satanás?»
Se um reino estiver dividido contra si mesmo,
tal reino não pode aguentar-se.
E se uma casa estiver dividida contra si mesma,
essa casa não pode aguentar-se.
Portanto, se Satanás se levanta contra si mesmo e se divide,
não pode subsistir: está perdido.
Ninguém pode entrar em casa de um homem forte
e roubar-lhe os bens, sem primeiro o amarrar:
só então poderá saquear a casa.
Em verdade vos digo:
Tudo será perdoado aos filhos dos homens:
os pecados e blasfémias que tiverem proferido;
mas quem blasfemar contra o Espírito Santo
nunca terá perdão: será réu de pecado eterno».
Referia-Se aos que diziam:
«Está possesso dum espírito impuro».
Entretanto, chegaram sua Mãe e seus irmãos,
que, ficando fora, mandaram-n’O chamar.
A multidão estava sentada em volta d’Ele,
quando Lhe disseram:
«Tua Mãe e teus irmãos estão lá fora à tua procura».
Mas Jesus respondeu-lhes:
«Quem é minha Mãe e meus irmãos?»
E, olhando para aqueles que estavam à sua vota, disse:
«Eis minha Mãe e meus irmãos.
Quem fizer a vontade de Deus
esse é meu irmão, minha irmã e minha Mãe».
BREVE COMENTÁRIO E INTERPELAÇÕES
Jesus continua a percorrer o espaço geográfico da Galileia e a cumprir a sua missão de anunciar o “Reino”. Começa, no entanto, a crescer a onda de contestação à sua pregação. Tomando como pretexto alguns casos particulares cada vez mais insignificantes, os líderes judaicos manifestam a sua firme oposição à novidade do “Reino”. As polémicas e controvérsias marcam esta fase da caminhada de Jesus.
De uma forma geral, Marcos narra as controvérsias seguindo um esquema fixo e sempre igual: começa com a apresentação da questão, continua com a discussão e termina com um “dito” final de Jesus. Este “dito” não oferece a mera solução do “caso” em questão, mas é sempre uma auto-revelação de Jesus, de importância decisiva para a comunidade cristã do tempo de Marcos e de todos os tempos.
Toda a cena se passa numa “casa”. Que casa é essa? É uma casa onde Jesus está a pregar a Palavra e é uma casa onde «de novo acorreu tanta gente, de modo que nem sequer podiam comer». É também uma casa onde estão sentados/instalados alguns especialistas da Lei (escribas). A “casa” onde Jesus prega, onde se congrega a comunidade judaica e onde há escribas instalados, poderia ser uma figura da sinagoga, entendida como assembleia do Povo de Deus. O facto de se referir que a “casa” em questão estava situada na cidade de Cafarnaum (o centro a partir do qual irradia a actividade de Jesus na Galileia) poderia indicar que Marcos está a falar da comunidade judaica da Galileia, em cujas sinagogas Jesus acabou de passar (cf. Mc 1,39), anunciando a Boa Nova do Reino. Em qualquer caso, a “casa” representa essa comunidade judaica a quem Jesus dirige a pregação do “Reino”.
A mensagem evangélica de hoje apresenta três diálogos de Jesus: dois com os seus familiares, no princípio e no fim, outro com os escribas, no meio
Fiquemo-nos pelos familiares de Jesus. Diz-se que vão a Cafarnaum para levar Jesus desta casa onde está para a sua casa em Nazaré. Muitas são as razões: muito tempo fora da família, notícias contraditórias sobre a sua actividade, mensagem em contraste com a doutrina oficial dos escribas e fariseus, contacto com os pecadores de quem é amigo, não seguimento da tradição dos antigos nem respeito pelo sábado; enfim, Jesus é considerado louco e herético. A intenção principal é reconduzi-lo ao caminho recto de um autêntico judeu.
Há os que ficam de fora e os que estão dentro. Imagem actualíssima para nós hoje. Podemos andar por fora, arredios, ficar à porta, até nos chamarmos “católicos não praticantes”. Que significa isso? Faz sentido? Ou se é ou não se é. Aí está de novo a radicalidade da opção por Jesus. Ou ficamos for, ou estamos dentro da casa, unidos a Jesus, a escutá-l’O e a segui-l’O com todo o nosso ser, com todo o nosso coração.
Em Outubro próximo inicia-se a celebração do Ano Fé, anunciado há meses por Bento XVI através de um breve mas belíssimo documento. Aí está: ou entramos na porta da casa, na Porta da Fé, e continuamos o caminho apenas com Jesus como único nas nossas vidas, ou ficamos à porta ou a espreitar pelas janelas, continuando a apanhar ou a soprar outros ventos que não nos centram em Jesus.
Na caminhada da fé, cada um é livre de optar pela família que quiser: ou ficar pelas famílias que dispersam do sentido da vida, ou permanecer na única família de Jesus, de «quem quiser fazer a vontade de Deus».

Fonte: http://www.dehonianos.org/portal/liturgia_dominical_ver.asp?liturgiaid=935

domingo, 4 de dezembro de 2011

Cultura do DAR-SE

A revista “Visão” de 24 de novembro, com o tema de capa «Quando dar é receber», recolheu «histórias inspiradoras» de figuras públicas que procuram ser solidárias. Alguns dos nove relatos envolvem a participação em atividades realizadas por instituições da Igreja Católica.

A descoberta de capacidades desconhecidas
A experiência de Carminho como voluntária «começou aos 18 anos, por influência de colegas da Universidade Lusíada, fazendo a ronda da noite da Comunidade Vida e Paz [onde também colabora Fernanda Freitas, apresentadora de televisão e presidente portuguesa do Ano Europeu do Voluntariado 2011], distribuindo sopa aos sem abrigo de Lisboa. Carminho dedicava, também, os seus fins de semana à Casa de Saúde Mental do Telhal e às monjas de Belém, onde ajudava nas limpezas. No verão do ano seguinte, partiu em missão de voluntariado, durante dois meses, para Cabo Verde… e a vontade de ajudar os outros nunca mais a abandonou.
“Não sei de onde é que vem essa vontade, que é comum a qualquer ser humano. É como um bicho que se entranha pelo coração adentro e nos faz olhar para as pessoas quase como nossas salvadoras. Porque o voluntariado tem a particularidade de nos iluminar por dentro.”
Foi em busca de alguma luz que partiu para uma volta ao mundo, aos 22 anos, quando terminou o curso de Marketing e Publicidade. Estava confusa, sabia apenas que não queria trabalhar naquela área. Já cantava, “tinha até propostas para gravar um disco”, mas não se sentia preparada para o fazer.
Por isso, agarrou “nuns trocos que tinha juntado com as cantorias” e comprou um bilhete especial, com direito a fazer 15 viagens de avião por pouco mais de dois mil euros. Nas cláusulas, apenas uma condição: nunca poderia voltar para trás. Partiu de mochila às costas, sozinha, com pouco dinheiro no bolso e sem nada organizado. O seu primeiro destino foi a Índia. Bateu à porta das Irmãs da Caridade, em Calcutá, dizendo: “Olá, sou a Carmo, de Portugal…”. Ninguém a esperava mas, antes que pudesse explicar alguma coisa, já a convidavam a entrar e a deitar mãos ao trabalho.
Ali ficou, durante mês e meio, dormindo em dois metros quadrados de chão e cuidando de moribundos. Logo na primeira semana foi recolher idosos abandonados na estação de comboios, que estavam a ser “literalmente comidos por vermes…”. Viu coisas terríveis e teve gente a morrer-lhe nos braços. “Passei a encarar a morte de forma muito diferente”, afirma. “Descobri capacidades em mim que desconhecia, para lidar com as fragilidades do ser humano, com a doença., a higiene… coisas que, às vezes, nos parecem barreiras, mas são mais como canais para chegarmos ao outro. E num sítio onde não conhecemos a língua, aprendi também que são os sorrisos, os gestos, a maneira como agimos que muda tudo”.
Nos 11 meses seguintes, Carminho correu mundo, procurando sempre ser útil: no Camboja esteve um mês a trabalhar num orfanato da Madre Teresa; em Timor-Leste deu aulas de português durante dois meses; no Peru passou outro mês a fazer o levantamento de estragos em aldeias isoladas, nas montanhas, após um terramoto. “Até hoje tenho recolhido frutos pequeninos dessa viagem”, diz, explicando que o desafio “é não esquecer” as lições que aprendeu pelo caminho. Regressou com o coração arrumado e a certeza de que queria dedicar a vida ao fado. “A minha voz é o que tenho de melhor e, se me foi dado este dom, é porque tem de ser partilhado.”»
O templo vivo de Deus são as pessoas
Da freguesia da Vitória, na cidade do Porto, «a vista estende-se pela de S. Nicolau, as duas bem no centro histórico da Invicta, as duas bem no centro da ação deste homem de 69 anos. Há 40 anos que o padre Jardim anda por estas ruas de empedrado incerto, assistindo ao rendilhado das vidas difíceis que as habitam. Não as trocava por nada, nem pela presidência da EAPN Portugal-Rede Europeia Anti-Pobreza, cargo que ocupa há 20 anos, desde a sua criação, e cujo trabalho a Assembleia da República reconheceu ao atribuir-lhe o Prémio de Direitos Humanos 2010.
“A minha maior alegria é trabalhar com esta gente. Mais facilmente deixaria a rede europeia…” Afinal. é naquelas duas paróquias, das mais pobres da cidade pobre, que Jardim Moreira tem a sua “obra”: sete casas dedicadas às crianças, mães adolescentes e velhos. É por estes que saca dinheiro aqui e ali. Ainda recentemente “inventou” um sistema de apadrinhamento – já tem 83 padrinhos e 26 voluntários -, para manter 28 crianças, dos 6 aos 10 anos, num dos seus centros paroquiais. Crianças que não estão abrangidas por qualquer acordo com o centro regional de Segurança Social. “Na rua é que elas não iam ficar”, assegura. “A sociedade civil vai ter de assumir o futuro deste país. Tem de ser corresponsável, porque a segurança dos pobres é também a nossa.”
Há em Jardim Moreira um pouquinho do padre Américo, o obreiro da Casa do Gaiato, contemporâneo de seu pai e visita lá de casa. Mas também do bispo vermelho Dom Hélder Câmara, brasileiro. Não é um rato de sacristia, antes homem da rua. Persegue um sonho: que o cristão “não se sinta chamado apenas a dar esmola” e que as políticas sociais estejam para lá do assistencialismo, da caridade ou da subsídio dependência. A palavra-chave é “partilha”; que cada um “assuma o problema do outro como sendo seu”.
Cedo percebeu que “o Evangelho é amar a Deus no próximo ou então não é”. O padre Jardim é muito claro: “O Cristo que a Igreja celebra e adora no altar é o que está esfarrapado e abandonado na rua.”
Quando iniciou o sacerdócio, em 1969, pediu “uma zona pobre, descristianizada”. O bispo deu-lhe “o pior que tinha”. E se, então, “para ir à Ribeira tinha de ser escoltado”, hoje é amavelmente saudado tanto pelo “senhor doutor” como pela prostituta do bairro. Começou por fazer obras na igreja. “Mas não valeu a pena, as pessoas não vinham.” Então decidiu ir ao encontro das pessoas, fazer o levantamento sociológico. Até alguns anos depois do 25 de abril de 1974, a atitude valeu-lhe o epíteto de comunista e havia quem afirmasse que recebia dinheiro de Moscovo. Mas ele nem 500 escudos tinha para sustentar a paróquia. Meteu-se a caminho da Europa e pediu “como um cego”, mesmo à Caritas belga. Fez assim o primeiro centro de idosos. “Onde está a Igreja? A Igreja é a casa ou são as pessoas? O templo vivo de Deus são as pessoas.”»
De Wall Street para África
«No próximo Natal, quem quiser encontrar Domitília dos Santos terá de procurá-la numa missão das Irmãs da Caridade, algures numa aldeia remota de Moçambique. A gestora de fortunas de Wall Street reserva sempre uma parte das suas férias para fazer voluntariado, inspirada na obra de Madre Teresa de Calcutá. Em países como o Vietname, Honduras, Gana, Haiti e Camboja, dorme no chão, come com a população local, despe-se das frivolidades da vida. Faz voluntariado com doentes terminais em Nova Iorque desde os anos 1980, mas começou a cumprir este ritual anual na Etiópia, em 2000.
“Estive lá oito dias. Ajudei doentes com sida, com lepra, foi uma experiência que me marcou para a vida inteira. Não havia nada, as crianças não tinham comida, quanto mais brinquedos, e eu puxei pela cabeça e fui recordar as brincadeiras que fazia em pequena, no Algarve, como o jogo da macaca… a alegria que me dava ver o sorriso dessas meninas quando me encontravam todas as manhãs é indescritível.”
O que a motiva a trocar o mundo da alta finança pela dos mais pobres? “Não tenho marido nem filhos e pode até ser um pouco egoísta, mas dá-me muita paz de espírito”, explica. “Sinto que estou a fazer a diferença na vida de alguém. Faz-me apreciar tudo o que tenho no meu dia a dia: a água que bebo, o sabonete que uso, a música que ouço… É como um spa para a alma.”»

Patrícia Fonseca (com Cesaltina Pinto)
In Visão, 24.11.2011
01.12.11


in http://www.snpcultura.org/cultura_do_dar_se.html