«O êxito de um bom dito reside no ouvido daquele que o escuta, não daquele que o pronuncia» (Shakespeare)
"Porquê?" & "Para quê?"
Impõe-se-me, como autor do blogue, dar uma explicação, ainda que breve, do "porquê" e do "para quê" da sua criação. O título já por si diz alguma coisa, mas não o suficiente. E será a partir dele, título, que construirei esse "suficiente". Vamos a isso! Assim:
Dito de dizer, escrever, noticiar, informar, motivar, explicar, divulgar, partilhar, denunciar, tudo aquilo que tenho e penso merecer sê-lo. Feito de fazer, actuar, concretizar, agir, reunir, construir. Um pressupõe e implica, necessariamente, o outro - «de palavras está o mundo cheio». Se muitos & bons discursos ditos, mas poucas ou nenhumas acções que tornem o mundo, um lugar, no mínimo, suportável para se viver, «olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço», então nada feito!!!
«Para bom entendedor meia palavra basta» - meu dito meu feito, palavras e motivo.
Dito de dizer, escrever, noticiar, informar, motivar, explicar, divulgar, partilhar, denunciar, tudo aquilo que tenho e penso merecer sê-lo. Feito de fazer, actuar, concretizar, agir, reunir, construir. Um pressupõe e implica, necessariamente, o outro - «de palavras está o mundo cheio». Se muitos & bons discursos ditos, mas poucas ou nenhumas acções que tornem o mundo, um lugar, no mínimo, suportável para se viver, «olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço», então nada feito!!!
«Para bom entendedor meia palavra basta» - meu dito meu feito, palavras e motivo.
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quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
ECONOMIA e FINANÇAS: Capitalismo liberal um conto de fadas animado
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segunda-feira, 14 de maio de 2012
A outra "Santíssima Trindade"
por ANSELMO BORGES, in Diário de Notícias, 12 de Maio de 2012
Salvo excelentes excepções, como Frei Bento Domingues, os teólogos em Portugal não se pronunciam sobre a crise económico-financeira. Não é o caso dos teólogos em Espanha. Alguns exemplos.
1. J. I. González Faus, da Faculdade de Teologia da Catalunha, faz uma crítica acérrima à presente situação. Voltando ao documentário célebre Inside Job, num artigo ácido que intitula "Agencias de rating o de raping?", denuncia os Bancos de investimento que vendiam activos tóxicos, sabendo-o. Lá estavam os peritos da Moody's e Standard and Poors, dizendo: "são AAA (fiabilidade máxima)." Deste modo, as três agências (Moody's, S & P e Fitch) ganharam milhões. Elas poderiam ter terminado a festa, dizendo: vamos ajustar os critérios. Mas não; pelo contrário, deram triplo A a Madoff, dias antes da sua queda. Meses antes da derrocada de Lehman Bro- thers, o próprio FMI declarou que estava "em boa situação financeira e os riscos parecem baixos".
Por isso, na arbitragem das agências, ao contrário do que deveria suceder, "é preciso partir do pressuposto da sua parcialidade e desonestidade, a não ser que se prove o contrário". O problema é que vivemos num sistema montado sobre a agressão do capital insaciável. "Se o Banco me emprestar dinheiro e eu o não devolver, tem direito a ficar com o que é meu e a continuar a exigir-me mais. Os que colocaram o seu dinheiro numa Caixa ou num Banco, se estes o não devolverem, não têm direito a nada." Cita o Papa João Paulo II: "A Igreja ensina a prioridade do trabalho frente ao capital: o trabalho sempre é uma causa eficiente primária enquanto o capital é só um instrumento." Mas comenta: "Isto só está em vigor a partir de uma ideia de Deus que nem os bispos partilham." E acrescenta: "Visto de Wall Street, o trabalhador é apenas uma ferramenta. E as ferramentas não têm dignidade."
A quem lhe atira que é um ignorante ou analfabeto económico responde: "Tive uma irmã gémea que morreu de cancro por culpa de uma clara falha médica. Quando lhe foi comunicado o diagnóstico fatal, limitou-se a dizer: 'Eu não saberei de medicina, mas quando digo que algo me dói é porque dói; mas ao médico não doía'. Receio que aos nossos médicos económicos lhes não dói."
2. José M. Castillo, da Universidade de Granada, pergunta: "Quem são os mercados?" O que se sabe é que, uma vez que o que interessa é o lucro, as pessoas investem somas fabulosas no capital financeiro e, neste momento, "ninguém sabe até onde chega a montanha imensa de dinheiro que os mercados manejam". O que é facto é que o movimento de capitais financeiros se move pelo mundo sem qualquer controlo, e um indivíduo, a partir de casa, com o seu computador, pode transtornar e afundar a estabilidade económica e as poupanças de milhões de pessoas.
Que fazer? Afinal, "a corrupção maior e mais perigosa não é a desta ou daquela pessoa, deste ou daquele político, desta ou daquela empresa. A corrupção mais grave é a corrupção do sistema económico em que estamos metidos", que enriquece mais os ricos e empobrece mais os pobres. Quem manda no mundo não são os políticos, mas a economia e a finança. "É urgente que nós todos pressionemos, cada um como puder e sempre com a mais transparente honradez, os que gerem o poder económico e político, para que regulem e controlem os mercados, aumente a produtividade e, em todo o caso, que o que se produz não beneficie tanto uns poucos à custa da ruína dos outros."
3. Xabier Pikaza, da Universidade de Salamanca, reflecte sobre a nova Trindade, frente à Trindade cristã. "A Trindade cristã era formada por Deus Pai, o Filho Jesus Cristo (que éramos todos os seres humanos) e o Espírito Santo (que era a comunhão ou amor entre Deus e os seres humanos, entre todos os seres humanos). Mas agora surgiu uma Trindade diferente, formada por Deus-Capital (que não é Pai, mas monstro que tudo devora), pelo Filho-Empresa, que não redime, mas produz bens de consumo ao serviço dos privilegiados do sistema, e pelo Espírito Santo-Mercado, que não é comunhão de amor, mas forma de domínio de uns sobre os outros."
Por isso, na arbitragem das agências, ao contrário do que deveria suceder, "é preciso partir do pressuposto da sua parcialidade e desonestidade, a não ser que se prove o contrário". O problema é que vivemos num sistema montado sobre a agressão do capital insaciável. "Se o Banco me emprestar dinheiro e eu o não devolver, tem direito a ficar com o que é meu e a continuar a exigir-me mais. Os que colocaram o seu dinheiro numa Caixa ou num Banco, se estes o não devolverem, não têm direito a nada." Cita o Papa João Paulo II: "A Igreja ensina a prioridade do trabalho frente ao capital: o trabalho sempre é uma causa eficiente primária enquanto o capital é só um instrumento." Mas comenta: "Isto só está em vigor a partir de uma ideia de Deus que nem os bispos partilham." E acrescenta: "Visto de Wall Street, o trabalhador é apenas uma ferramenta. E as ferramentas não têm dignidade."
A quem lhe atira que é um ignorante ou analfabeto económico responde: "Tive uma irmã gémea que morreu de cancro por culpa de uma clara falha médica. Quando lhe foi comunicado o diagnóstico fatal, limitou-se a dizer: 'Eu não saberei de medicina, mas quando digo que algo me dói é porque dói; mas ao médico não doía'. Receio que aos nossos médicos económicos lhes não dói."
2. José M. Castillo, da Universidade de Granada, pergunta: "Quem são os mercados?" O que se sabe é que, uma vez que o que interessa é o lucro, as pessoas investem somas fabulosas no capital financeiro e, neste momento, "ninguém sabe até onde chega a montanha imensa de dinheiro que os mercados manejam". O que é facto é que o movimento de capitais financeiros se move pelo mundo sem qualquer controlo, e um indivíduo, a partir de casa, com o seu computador, pode transtornar e afundar a estabilidade económica e as poupanças de milhões de pessoas.
Que fazer? Afinal, "a corrupção maior e mais perigosa não é a desta ou daquela pessoa, deste ou daquele político, desta ou daquela empresa. A corrupção mais grave é a corrupção do sistema económico em que estamos metidos", que enriquece mais os ricos e empobrece mais os pobres. Quem manda no mundo não são os políticos, mas a economia e a finança. "É urgente que nós todos pressionemos, cada um como puder e sempre com a mais transparente honradez, os que gerem o poder económico e político, para que regulem e controlem os mercados, aumente a produtividade e, em todo o caso, que o que se produz não beneficie tanto uns poucos à custa da ruína dos outros."
3. Xabier Pikaza, da Universidade de Salamanca, reflecte sobre a nova Trindade, frente à Trindade cristã. "A Trindade cristã era formada por Deus Pai, o Filho Jesus Cristo (que éramos todos os seres humanos) e o Espírito Santo (que era a comunhão ou amor entre Deus e os seres humanos, entre todos os seres humanos). Mas agora surgiu uma Trindade diferente, formada por Deus-Capital (que não é Pai, mas monstro que tudo devora), pelo Filho-Empresa, que não redime, mas produz bens de consumo ao serviço dos privilegiados do sistema, e pelo Espírito Santo-Mercado, que não é comunhão de amor, mas forma de domínio de uns sobre os outros."
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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
EURO, qual Euro. Crise...
... «o tanas & o badanas»! Mudança de paradigma é o que é: séc. XXI, o século da ditadura do capital financeiro-especulativo, da ganância, dos novos senhores... E o "povão" a vê-los pass(e)ar - como diria um meu sobrinho - "é fem fêto"!!! Senão vejamos o que "rezam" as notícias:
1. Marcha do Orgulho Gay: 1 milhão de pessoas;
2. Marcha contra a corrupção. 2.500 pessoas;
3. Gala da "Casa dos Segredos", o programa mais visto na passagem de ano: 1.348.300 espectadores.
E assim se constrói a injustiça de que esse mesmo "povão" de irresponsáveis acusam os políticos que é o fazer "pagar uns pelos outros". Como diria Ivone Silva, "toma lá qu'é democrático" - actualíssimo!
" Sabem quem é Papademos Lucas (actual líder grego após a renúncia de Papandreou)
Sabem quem é Mariano Monti (agora à frente do governo italiano)?
Sabem quem é Mario Draghi (actual presidente do Banco Central Europeu)?
Sabem o que é Goldman Sachs?
Goldman Sachs: é um dos maiores bancos de investimento mundial e co-responsável directo, com outras entidades (como a agência de notação financeira Moody?s), pela actual crise e um dos seus maiores beneficiários. Como exemplo, em 2007,a G.S. ganhou 4 bilhões de dólares em transacções que resultaram directamente do actual desastre da economia do EUA. O EUA ainda não recuperaram das percas infligidas pelo sector especulativo e financeiro dos EUA.
Papademos: actual primeiro-ministro grego na sequência da demissão de Papandreou. Atenção não foi eleito pelo povo.
- Ex-governador do Federal Reserve Bank de Boston, entre 1993 e 1994.
- Vice-Presidente do Banco Central Europeu 2002-2010.
- Membro da Comissão Trilateral desde 1998, lobby neo-liberal fundado por Rockefeller, (dedicam-se a comprar políticos em troca de subornos).
- Ex-Governador do Banco Central da Grécia entre 1994 e 2002. Falseou as contas do défice público do país com o apoio activo da Goldman Sachs, o que levou, em grande parte à actual crise no país.
Mariano Monti: actual primeiro-ministro da Itália após a renúncia de Berlusconi. Atenção não foi eleito pelo povo.
- O ex-director europeu da Comissão Trilateral mencionada acima.
- Ex-membro da equipe directiva do grupo Bilderberg.
- Conselheiro do Goldman Sachs durante o período em que esta ajudou a esconder o défice orçamental grego.
Mario Draghi: actual presidente do Banco Central Europeu para substituir Jean-Claude Trichet.
- O ex-director executivo do Banco Mundial entre 1985 e 1990.
- Vice-Presidente para a Europa do Goldman Sachs de 2002 a 2006, período durante o qual ocorreu o falseamento acima mencionado.
Vejam tantas pessoas que trabalhavam para o Goldman Sachs ....
Bem, que coincidência, todos do lado do Goldman Sachs. Aqueles que criaram a crise são agora apresentados como a única opção viável para sair dela, no que a imprensa americana está começando a chamar de "O governo da Goldman Sachs na Europa."
Como é que eles fizeram?
Eu explico:
Encorajaram investidores a investir em produtos secundários que sabiam ser " lixo " e, ao mesmo tempo, dedicaram-se a apostar em bolsa o seu fracasso. Isto é apenas a ponta do iceberg, e está bem documentado, podem investigar. Agora enquanto lêem este e-mail estão esperando na base da especulação sobre a dívida soberana italiana e seguidamente será a espanhola.
Tende-se a querer-nos fazer pensar que a crise foi uma espécie de deslizamento, mas a realidade sugere que por trás dela há uma vontade perfeitamente orquestrada de tomar o poder directo no nosso continente, num movimento sem precedentes na Europa do século XXI.
A estratégia dos grandes bancos de investimento e agências de rating é uma variante de outras realizadas anteriormente noutros continentes e que tem vindo a desenvolver-se desde o início da crise; é, do meu ponto de vista, como se segue:
1. Afundar o país mediante especulação na bolsa de valores / mercado. Pomo-los loucos com medo do que dirão os mercados, que nós controlamos dia a dia.
2. Forçá-los a pedir dinheiro emprestado para, manter o Status-Quo ou simplesmente salvá-los da banca rota. Estes empréstimos são rigorosamente calculados para que os países não os possam pagar, como é o caso da Grécia que não poderia cobrir a sua dívida, mesmo que o governo vendesse todo o país, e não é metáfora, é matemática, aritmética.
3. Exigimos cortes sociais e privatizações, à custa dos cidadãos, sob a ameaça de que se os governos não as levam a cabo, os investidores irão retirar-se por medo de não serem capazes de recuperar o dinheiro investido na dívida desses países e noutros investimentos.
4. Cria-se um alto nível de descontentamento social, adequado para que o povo, já ouvido, aceite qualquer coisa para sair da situação.
5. Colocamos os nossos homens, onde mais nos convenha.
Se acham que é ficção científica, informem-se: estas estratégias estão bem documentadas e têm sido usadas com diferentes variações ao longo do século XX e XXI noutros países, nomeadamente na América Latina pelos Estados Unidos, quando se dedicavam, e continuam a dedicar-se na medida do possível, a asfixiar economicamente mediante a dívida externa por exemplo a países da América Central, criando instabilidade e descontentamento social usando isso para colocar no poder os líderes "simpáticos" aos seus interesses. Portanto nada disto tem a ver com o EURO. O EURO é uma moeda Forte, porque os investidores vêm ai carne para desossar, se não houvesse o Euro o ataque acontecia na mesma, só que se calhar os primeiros a cair não seriam os PIGS, mas a própria Alemanha, a Inglaterra etc. Não são o Governo dos EUA, que deferem estes golpes, mas sim a indústria financeira internacional, principalmente sediada em Wall Street(New York) e na City (Londres). É que o que está acontecendo sob o olhar impotente e / ou cúmplice dos nossos governos é o maior assalto de sempre na história da humanidade à escala global. São autênticos golpes de estado e violações flagrantes da soberania dos Estados e seus povos.
É fácil divulgar isto na internet.
Digam aos vossos amigos, para passar o e-mail para qualquer um que possa estar interessado.
Se nos estão comendo vivos ... As pessoas precisam saber. Estamos a sofrer uma anexação pela via financeira, e esta é a realidade. "
O futuro, quando fôr feita a história, o dirá, confirmando ou desmentindo, claramente - a ver vamos!!!
Estávamos em 1982,recordam-se? Quem não se recorda?!
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domingo, 4 de dezembro de 2011
Cultura do DAR-SE
A revista “Visão” de 24 de novembro, com o tema de capa «Quando dar é receber», recolheu «histórias inspiradoras» de figuras públicas que procuram ser solidárias. Alguns dos nove relatos envolvem a participação em atividades realizadas por instituições da Igreja Católica.
Patrícia Fonseca (com Cesaltina Pinto)
In Visão, 24.11.2011
01.12.11
in http://www.snpcultura.org/cultura_do_dar_se.html
A descoberta de capacidades desconhecidas
A experiência de Carminho como voluntária «começou aos 18 anos, por influência de colegas da Universidade Lusíada, fazendo a ronda da noite da Comunidade Vida e Paz [onde também colabora Fernanda Freitas, apresentadora de televisão e presidente portuguesa do Ano Europeu do Voluntariado 2011], distribuindo sopa aos sem abrigo de Lisboa. Carminho dedicava, também, os seus fins de semana à Casa de Saúde Mental do Telhal e às monjas de Belém, onde ajudava nas limpezas. No verão do ano seguinte, partiu em missão de voluntariado, durante dois meses, para Cabo Verde… e a vontade de ajudar os outros nunca mais a abandonou.
“Não sei de onde é que vem essa vontade, que é comum a qualquer ser humano. É como um bicho que se entranha pelo coração adentro e nos faz olhar para as pessoas quase como nossas salvadoras. Porque o voluntariado tem a particularidade de nos iluminar por dentro.”
Foi em busca de alguma luz que partiu para uma volta ao mundo, aos 22 anos, quando terminou o curso de Marketing e Publicidade. Estava confusa, sabia apenas que não queria trabalhar naquela área. Já cantava, “tinha até propostas para gravar um disco”, mas não se sentia preparada para o fazer.
Por isso, agarrou “nuns trocos que tinha juntado com as cantorias” e comprou um bilhete especial, com direito a fazer 15 viagens de avião por pouco mais de dois mil euros. Nas cláusulas, apenas uma condição: nunca poderia voltar para trás. Partiu de mochila às costas, sozinha, com pouco dinheiro no bolso e sem nada organizado. O seu primeiro destino foi a Índia. Bateu à porta das Irmãs da Caridade, em Calcutá, dizendo: “Olá, sou a Carmo, de Portugal…”. Ninguém a esperava mas, antes que pudesse explicar alguma coisa, já a convidavam a entrar e a deitar mãos ao trabalho.
Ali ficou, durante mês e meio, dormindo em dois metros quadrados de chão e cuidando de moribundos. Logo na primeira semana foi recolher idosos abandonados na estação de comboios, que estavam a ser “literalmente comidos por vermes…”. Viu coisas terríveis e teve gente a morrer-lhe nos braços. “Passei a encarar a morte de forma muito diferente”, afirma. “Descobri capacidades em mim que desconhecia, para lidar com as fragilidades do ser humano, com a doença., a higiene… coisas que, às vezes, nos parecem barreiras, mas são mais como canais para chegarmos ao outro. E num sítio onde não conhecemos a língua, aprendi também que são os sorrisos, os gestos, a maneira como agimos que muda tudo”.
Nos 11 meses seguintes, Carminho correu mundo, procurando sempre ser útil: no Camboja esteve um mês a trabalhar num orfanato da Madre Teresa; em Timor-Leste deu aulas de português durante dois meses; no Peru passou outro mês a fazer o levantamento de estragos em aldeias isoladas, nas montanhas, após um terramoto. “Até hoje tenho recolhido frutos pequeninos dessa viagem”, diz, explicando que o desafio “é não esquecer” as lições que aprendeu pelo caminho. Regressou com o coração arrumado e a certeza de que queria dedicar a vida ao fado. “A minha voz é o que tenho de melhor e, se me foi dado este dom, é porque tem de ser partilhado.”»
O templo vivo de Deus são as pessoas
Da freguesia da Vitória, na cidade do Porto, «a vista estende-se pela de S. Nicolau, as duas bem no centro histórico da Invicta, as duas bem no centro da ação deste homem de 69 anos. Há 40 anos que o padre Jardim anda por estas ruas de empedrado incerto, assistindo ao rendilhado das vidas difíceis que as habitam. Não as trocava por nada, nem pela presidência da EAPN Portugal-Rede Europeia Anti-Pobreza, cargo que ocupa há 20 anos, desde a sua criação, e cujo trabalho a Assembleia da República reconheceu ao atribuir-lhe o Prémio de Direitos Humanos 2010.
“A minha maior alegria é trabalhar com esta gente. Mais facilmente deixaria a rede europeia…” Afinal. é naquelas duas paróquias, das mais pobres da cidade pobre, que Jardim Moreira tem a sua “obra”: sete casas dedicadas às crianças, mães adolescentes e velhos. É por estes que saca dinheiro aqui e ali. Ainda recentemente “inventou” um sistema de apadrinhamento – já tem 83 padrinhos e 26 voluntários -, para manter 28 crianças, dos 6 aos 10 anos, num dos seus centros paroquiais. Crianças que não estão abrangidas por qualquer acordo com o centro regional de Segurança Social. “Na rua é que elas não iam ficar”, assegura. “A sociedade civil vai ter de assumir o futuro deste país. Tem de ser corresponsável, porque a segurança dos pobres é também a nossa.”
Há em Jardim Moreira um pouquinho do padre Américo, o obreiro da Casa do Gaiato, contemporâneo de seu pai e visita lá de casa. Mas também do bispo vermelho Dom Hélder Câmara, brasileiro. Não é um rato de sacristia, antes homem da rua. Persegue um sonho: que o cristão “não se sinta chamado apenas a dar esmola” e que as políticas sociais estejam para lá do assistencialismo, da caridade ou da subsídio dependência. A palavra-chave é “partilha”; que cada um “assuma o problema do outro como sendo seu”.
Cedo percebeu que “o Evangelho é amar a Deus no próximo ou então não é”. O padre Jardim é muito claro: “O Cristo que a Igreja celebra e adora no altar é o que está esfarrapado e abandonado na rua.”
Quando iniciou o sacerdócio, em 1969, pediu “uma zona pobre, descristianizada”. O bispo deu-lhe “o pior que tinha”. E se, então, “para ir à Ribeira tinha de ser escoltado”, hoje é amavelmente saudado tanto pelo “senhor doutor” como pela prostituta do bairro. Começou por fazer obras na igreja. “Mas não valeu a pena, as pessoas não vinham.” Então decidiu ir ao encontro das pessoas, fazer o levantamento sociológico. Até alguns anos depois do 25 de abril de 1974, a atitude valeu-lhe o epíteto de comunista e havia quem afirmasse que recebia dinheiro de Moscovo. Mas ele nem 500 escudos tinha para sustentar a paróquia. Meteu-se a caminho da Europa e pediu “como um cego”, mesmo à Caritas belga. Fez assim o primeiro centro de idosos. “Onde está a Igreja? A Igreja é a casa ou são as pessoas? O templo vivo de Deus são as pessoas.”»
De Wall Street para África
«No próximo Natal, quem quiser encontrar Domitília dos Santos terá de procurá-la numa missão das Irmãs da Caridade, algures numa aldeia remota de Moçambique. A gestora de fortunas de Wall Street reserva sempre uma parte das suas férias para fazer voluntariado, inspirada na obra de Madre Teresa de Calcutá. Em países como o Vietname, Honduras, Gana, Haiti e Camboja, dorme no chão, come com a população local, despe-se das frivolidades da vida. Faz voluntariado com doentes terminais em Nova Iorque desde os anos 1980, mas começou a cumprir este ritual anual na Etiópia, em 2000.
“Estive lá oito dias. Ajudei doentes com sida, com lepra, foi uma experiência que me marcou para a vida inteira. Não havia nada, as crianças não tinham comida, quanto mais brinquedos, e eu puxei pela cabeça e fui recordar as brincadeiras que fazia em pequena, no Algarve, como o jogo da macaca… a alegria que me dava ver o sorriso dessas meninas quando me encontravam todas as manhãs é indescritível.”
O que a motiva a trocar o mundo da alta finança pela dos mais pobres? “Não tenho marido nem filhos e pode até ser um pouco egoísta, mas dá-me muita paz de espírito”, explica. “Sinto que estou a fazer a diferença na vida de alguém. Faz-me apreciar tudo o que tenho no meu dia a dia: a água que bebo, o sabonete que uso, a música que ouço… É como um spa para a alma.”»
Patrícia Fonseca (com Cesaltina Pinto)
In Visão, 24.11.2011
01.12.11
in http://www.snpcultura.org/cultura_do_dar_se.html
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