"Porquê?" & "Para quê?"

Impõe-se-me, como autor do blogue, dar uma explicação, ainda que breve, do "porquê" e do "para quê" da sua criação. O título já por si diz alguma coisa, mas não o suficiente. E será a partir dele, título, que construirei esse "suficiente". Vamos a isso! Assim:
Dito de dizer, escrever, noticiar, informar, motivar, explicar, divulgar, partilhar, denunciar, tudo aquilo que tenho e penso merecer sê-lo. Feito de fazer, actuar, concretizar, agir, reunir, construir. Um pressupõe e implica, necessariamente, o outro - «de palavras está o mundo cheio». Se muitos & bons discursos ditos, mas poucas ou nenhumas acções que tornem o mundo, um lugar, no mínimo, suportável para se viver, «olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço», então nada feito!!!

«Para bom entendedor meia palavra basta» - meu dito meu feito, palavras e motivo.





























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sexta-feira, 23 de junho de 2017

domingo, 24 de fevereiro de 2013

PALAVRA de DOMINGO: contextualizá-la para bem a entender e melhor vivê-la!

EVANGELHO Lc 9,28b-36
Evangelho de Nosso senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
Jesus tomou consigo Pedro, João e Tiago
e subiu ao monte, para orar.
Enquanto orava,
alterou-se o aspecto do seu rosto
e as suas vestes ficaram de uma brancura refulgente.
Dois homens falavam com Ele:
eram Moisés e Elias,
que, tendo aparecido em glória,
falavam da morte de Jesus,
que ia consumar-se em Jerusalém.
Pedro e os companheiros estavam a cair de sono;
mas, despertando, viram a glória de Jesus
e os dois homens que estavam com Ele.
Quando estes se iam afastando,
Pedro disse a Jesus:
«Mestre, como é bom estarmos aqui!
Façamos três tendas:
uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias».
Não sabia o que estava a dizer.
Enquanto assim falava,
veio uma nuvem que os cobriu com a sua sombra;
e eles ficaram cheios de medo, ao entrarem na nuvem.
Da nuvem saiu uma voz, que dizia:
«Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O».
Quando a voz se fez ouvir, Jesus ficou sozinho.
Os discípulos guardaram silêncio
e, naqueles dias, a ninguém contaram nada do que tinham visto.
AMBIENTE
Estamos no final da “etapa da Galileia”; durante essa etapa, Jesus anunciou a salvação aos pobres, proclamou a libertação aos cativos, fez os cegos recobrar a vista, mandou em liberdade os oprimidos, proclamou o tempo da graça do Senhor (cf. Lc 4,16-30). À volta de Jesus já se formou esse grupo dos que acolheram a oferta da salvação (os discípulos). Testemunhas das palavras e dos gestos libertadores de Jesus, eles já descobriram que Jesus é o Messias de Deus (cf. Lc 9,18-20). Também já ouviram dizer que o messianismo de Jesus passa pela cruz (cf. Lc 9,21-22) e que os discípulos de Jesus devem seguir o mesmo caminho de amor e de entrega da vida (cf. Lc 9,23-26); mas, antes de subirem a Jerusalém para testemunhar a erupção total da salvação, recebem a revelação do Pai que, no alto de um monte, atesta que Jesus é o Filho bem amado. Os acontecimentos que se aproximam ganham, assim, novo sentido.
Para o homem bíblico, o “monte” era o lugar sagrado por excelência: a meio caminho entre a terra e o céu, era o lugar ideal para o encontro do homem com o mundo divino. É, portanto, no monte que Deus Se revela ao homem e lhe apresenta os seus projectos.
MENSAGEM
O relato da transfiguração de Jesus, mais do que uma crónica fotográfica de acontecimentos, é uma página de teologia; aí, apresenta-se uma catequese sobre Jesus, o Filho amado de Deus, que através da cruz concretiza um projecto de vida.
O episódio está cheio de referências ao Antigo Testamento. O “monte” situa-nos num contexto de revelação (é “no monte” que Deus Se revela e que faz aliança com o seu Povo); a “mudança” do rosto e as vestes de brancura resplandecente recordam o resplendor de Moisés, ao descer do Sinai (cf. Ex 34,29); a nuvem indica a presença de Deus conduzindo o seu Povo através do deserto (cf. Ex 40,35; Nm 9,18.22;10,34).
Moisés e Elias representam a Lei e os Profetas (que anunciam Jesus e que permitem entender Jesus); além disso, são personagens que, de acordo com a catequese judaica, deviam aparecer no “dia do Senhor”, quando se manifestasse a salvação definitiva (cf. Dt 18,15-18; Mal 3,22-23). Eles falam com Jesus sobre a sua “morte” (“exodon” – “partida”) que ia dar-se em Jerusalém. A palavra usada por Lucas situa-nos no contexto do “êxodo”: a morte próxima de Jesus é, pois, vista por Lucas como uma morte libertadora, que trará o Povo de Deus da terra da escravidão para a terra da liberdade.
A mensagem fundamental é, portanto, esta: Jesus é o Filho amado de Deus, através de quem o Pai oferece aos homens uma proposta de aliança e de libertação. O Antigo Testamento (Lei e Profetas) e as figuras de Moisés e Elias apontam para Jesus e anunciam a salvação definitiva que, n’Ele, irá acontecer. Essa libertação definitiva dar-se-á na cruz, quando Jesus cumprir integralmente o seu destino de entrega, de dom, de amor total. É esse o “novo êxodo”, o dia da libertação definitiva do Povo de Deus.
E o “sono” dos discípulos e as “tendas”? O “sono” é simbólico: os discípulos “dormem” porque não querem entender que a “glória” do Messias tenha de passar pela experiência da cruz e da entrega da vida; a construção das “tendas” (alusão à “festa das tendas”, em que se celebrava o tempo do êxodo, quando o Povo de Deus habitou em “tendas, no deserto?) parece significar que os discípulos queriam deter-se nesse momento de revelação gloriosa, de festa, ignorando o destino de sofrimento de Jesus.
ACTUALIZAÇÃO
Reflectir a partir das seguintes linhas:
• O facto fundamental deste episódio reside na revelação de Jesus como o Filho amado de Deus, que vai concretizar o plano salvador e libertador do Pai em favor dos homens através do dom da vida, da entrega total de Si próprio por amor. É dessa forma que se realiza a nossa passagem da escravidão do egoísmo para a liberdade do amor. A “transfiguração” anuncia a vida nova que daí nasce, a ressurreição.
• Os três discípulos que partilham a experiência da transfiguração recusam-se a aceitar que o triunfo do projecto libertador do Pai passe pelo sofrimento e pela cruz. Eles só concebem um Deus que Se manifesta no poder, nas honras, nos triunfos; e não entendem um Deus que Se manifesta no serviço, no amor que se dá. Qual é o caminho da Igreja de Jesus (e de cada um de nós, em particular): um caminho de busca de honras, de busca de influências, de promiscuidade com o poder, ou um caminho de serviço aos mais pobres, de luta pela justiça e pela verdade, de amor que se faz dom? É no amor e no dom da vida que buscamos a vida nova aqui anunciada?
• Os discípulos, testemunhas da transfiguração, parecem também não ter muita vontade de “descer à terra” e enfrentar o mundo e os problemas dos homens. Representam todos aqueles que vivem de olhos postos no céu, mas alheados da realidade concreta do mundo, sem vontade de intervir para o renovar e transformar. No entanto, a experiência de Jesus obriga a continuar a obra que Ele começou e a “regressar ao mundo” para fazer da vida um dom e uma entrega aos homens nossos irmãos. A religião não é um “ópio” que nos adormece, mas um compromisso com Deus que Se faz compromisso de amor com o mundo e com os homens.



FONTE: http://www.dehonianos.org/portal/liturgia_dominical_ver.asp?liturgiaid=450

domingo, 17 de fevereiro de 2013

PALAVRA de DOMINGO: contextualizá-la para bem a entender e melhor vivê-la!

EVANGELHO Lc 4,1-13
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
Jesus, cheio do Espírito Santo,
retirou-Se das margens do Jordão.
Durante quarenta dias,
esteve no deserto, conduzido pelo Espírito,
e foi tentado pelo diabo.
Nesses dias não comeu nada
e, passado esse tempo, sentiu fome.
O diabo disse-lhe:
«Se és Filho de Deus,
manda a esta pedra que se transforme em pão».
Jesus respondeu-lhe:
«Está escrito:
‘Nem só de pão vive o homem’».
O diabo levou-O a um lugar alto
e mostrou-Lhe num instante todos os reinos da terra
e disse-Lhe:
«Eu Te darei todo este poder e a glória destes reinos,
porque me foram confiados e os dou a quem eu quiser.
Se Te prostrares diante de mim, tudo será teu».
Jesus respondeu-lhe:
«Está escrito:
‘Ao Senhor teu Deus adorarás,
só a Ele prestarás culto’».
Então o demónio levou-O a Jerusalém,
colocou-O sobre o pináculo do Templo
e disse-Lhe:
«Se és Filho de Deus,
atira-te daqui abaixo,
porque está escrito:
‘Ele dará ordens aos seus Anjos a teu respeito,
para que te guardem’;
e ainda: ‘Na palma das mãos te levarão,
para que não tropeces em alguma pedra’».
Jesus respondeu-lhe:
«Está mandado:
‘Não tentarás o Senhor teu Deus’».
Então o diabo, tendo terminado toda a espécie de tentação,
retirou-se da presença de Jesus, até certo tempo.
AMBIENTE
Estamos no começo da actividade pública de Jesus. Ele acabou de ser baptizado por João Baptista e recebeu o Espírito para a missão (cf. Lc 3,21-22). Agora, confronta-Se com uma proposta de actuação messiânica que pretende subverter a proposta do Pai.
Também aqui não estamos diante de uma reportagem histórica, feita por um jornalista que presenciou o desafio entre Jesus e o diabo, algures no desertoEstamos, sim, diante de uma página de catequese, cujo objectivo é ensinar-nos que Jesus, como nós, sentiu a mordedura das tentações. Ele também sentiu a tentação de prescindir de Deus e de seguir um caminho humano de êxitos, de aplausos, de poder e de riqueza; no entanto, Ele soube dizer não a todas essas propostas que O afastavam do plano do Pai.
MENSAGEM
Lucas (como já o havia feito Mateus) vai apresentar a catequese sobre as opções de Jesus, em três episódios ou “parábolas”. O relato constrói-se em torno de um diálogo em que tanto o diabo como Jesus citam a Escritura em apoio da sua opinião.
A primeira “parábola” sugere que Jesus poderia ter optado por um caminho de facilidade e de riqueza, utilizando a sua divindade para resolver qualquer necessidade material… No entanto, Jesus sabia que “nem só de pão vive o homem” e que o caminho do Pai não passa pela acumulação egoísta de bens. A resposta de Jesus cita Dt 8,3, sugerindo que o seu alimento – a sua prioridade – é a Palavra do Pai.
A segunda “parábola” sugere que Jesus poderia ter escolhido um caminho de poder, de domínio, de prepotência, ao jeito dos grandes da terra. No entanto, Jesus sabe que esses esquemas são diabólicos e que não entram nos planos do Pai; por isso, citando Dt 6,13, diz que só o Pai é o seu “absoluto” e que não se deve adorar mais nada: adorar o poder que corrompe e escraviza não tem nada a ver com o projecto de Deus.
A terceira “parábola” sugere que Jesus poderia ter construído um caminho de êxito fácil, mostrando o seu poder através de gestos espectaculares e sendo admirado e aclamado pelas multidões (sempre dispostas a deixarem-se fascinar pelo “show” mediático dos super-heróis). Jesus responde a esta proposta citando Dt 6,16, que manda “não tentar” o Senhor Deus: aqui, “tentar” significa “não utilizar os dons de Deus ou a bondade de Deus com um fim egoísta e interesseiro”.
Apresentam-se, portanto, diante de Jesus, dois caminhos. De um lado, está a proposta do diabo: que Jesus realize o seu papel na história da salvação como um Messias triunfante, ao jeito dos homens. Do outro, está a escolha de Jesus: um caminho de obediência ao Pai e de serviço aos homens, que elimina qualquer concepção do messianismo como poder.
ACTUALIZAÇÃO
Reflectir sobre as seguintes coordenadas:
Frente a frente estão, hoje, a lógica de Deus e a lógica dos homens. A catequese que o Evangelho nos apresenta neste primeiro Domingo da Quaresma ensina que Jesus pautou cada uma das suas escolhas pela lógica de Deus. E nós, cristãos, seguidores de Jesus? É essa a nossa lógica, também?
Deixar-se conduzir pela tentação dos bens materiais, do acumular mais e mais, do olhar apenas para o seu próprio conforto e comodidade, do fechar-se à partilha e às necessidades dos outros, é seguir o caminho de Jesus? Pagar salários de miséria aos operários e malbaratar fortunas em noitadas de jogo ou em coisas supérfluas (enquanto os irmãos, ao lado, gemem a sua miséria), é seguir o caminho de Jesus?
Dentro de cada pessoa, existe o impulso de dominar, de ter autoridade, de prevalecer sobre os outros. Por isso – às vezes na Igreja – os pobres, os débeis, os humildes têm de suportar atitudes de prepotência, de autoritarismo, de intolerância, de abuso. A catequese de hoje sugere que este “caminho” é diabólico e não tem nada a ver com o serviço simples e humilde que Jesus propôs nas suas palavras e nos seus gestos.
• Podemos, também, ceder à tentação de usar Deus ou os dons de Deus para brilhar, para dar espectáculo, para levar os outros a admirar-nos e a bater-nos palmas. A isto Jesus responde de forma determinada: não utilizarás Deus em proveito da tua vaidade e do teu êxito pessoal.

FONTE: http://www.dehonianos.org/portal/liturgia_dominical_ver.asp?liturgiaid=451

domingo, 18 de novembro de 2012

ESPIRITUALIDADE: A Missa sobre o Mundo

Um a um, Senhor, eu os vejo e os amo, aqueles que me destes como sustento e como encanto natural de minha existência. Um a um, também, eu os conto, os membros dessa outra e tão cara família que pouco a pouco as afinidades do coração, da pesquisa científica e do pensamento juntaram à minha volta, a partir dos elementos mais diversos. Mais confusamente, mas todos sem exceção, eu os evoco, aqueles cujo exército anónimo forma a massa inumerável dos vivos: aqueles que me rodeiam e me sustentam sem que eu os conheça; aqueles que vêm e aqueles que vão; sobretudo aqueles que, na Verdade ou através do Erro, no seu escritório, laboratório ou fábrica, creem no progresso das Coisas e, hoje, perseguirão apaixonadamente a luz.

terça-feira, 3 de julho de 2012

3 de JULHO de 1987: Lembrar e homenagear o Pe. Alberto Neto porque...

..."o esquecimento é a morte de tudo quanto vive no coração" (Karr, Alphonse) e "Há uma coisa mais aviltadora do que o desprezo: é o esquecimento." (Castelo Branco, Camilo). E ele não merece isso, bem pelo contrário!

Conhecem ou lembram-se deste Homem e Padre, assim mesmo, com letra grande? O Homem e o Padre da célebre vigília de fim de ano, 1972/73, na Capela do Rato de que era o capelão? Pois, pois, foi cobardemente assassinado com um tiro de pistola, faz 25 anos, hoje dia 3 de Julho de 2012, sobre essa data fatídica e perda muito triste. Porquê? Fora os negritos & sublinhados que são da minha responsabilidade, os textos, três, que se seguem e que são da época (1969/71) - note-se - fazem perceber, entender e explicar tudo, tudo, acerca desse porquê. Do assassinato, mas também e sobretudo do "H" de Homem e "P" de Padre grandes.

Padre Alberto Neto «viveu e morreu como um profeta
O padre Alberto Neto «viveu e morreu como um profeta», declara o cónego António Janela em entrevista que o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura publica no dia em que passam 25 anos da sua morte. A convivência com o desporto, que não se resumia a defender o clube de Alvalade, foi um pretexto para se aproximar dos jovens. Era um homem «humilde», em que «a opção preferencial pelos pobres não era um chavão; era uma realidade concreta». «Sabia que pisava um terreno minado mas o padre Alberto era um homem corajoso. Sofreu as consequências de se não se ter refugiado na comodidade do clérigo que faz o seu serviço, e ponto final. Ele arriscou e pagou com a própria vida».

A Fé vê-se na prática da justiça e do bem
(...) Muitos andam a ouvir a palavra de Deus há tantos anos... Tantos a ouviram no tempo de Cristo e tão poucos foram tocados, apanhados vitalmente pelo mesmo Cristo. Os que voltam atrás, depois de o ouvirem, os que nunca se vão, os que são capazes de aceitar a marcha dolorosa do continuar a ser com Ele e por Ele, esses entenderam que a Fé é mais do que a aceitação intelectual de verdades apanhadas na linha de inteligência, é mais do que um esforço da linha vontade, ou é mais do que um deixar-se deslumbrar pela sensibilidade. É, acima de tudo, ser tocado de amizade profunda e de confiança absoluta. É descobrir naquele homem alguém que dá sentido à própria vida. E isso foi um estrangeiro que descobriu. É impressionante que Cristo três vezes diz no Evangelho: «Nunca vi Fé semelhante a esta em Israel».
Foi sempre nos pagãos e nos estrangeiros que Ele encontrou esta pureza, esta claridade de Fé. E reparai na Fé deste homem: andam os teólogos para aí a discutir se ela era implícita ou explícita, nem ele sabe, mas Cristo diz-lhe: «A tua Fé te salvou. Vai em paz». Ele era um pagão. Ele veio ter com aquele que lhe diziam que era de Deus, e apostou em tudo o que Ele lhe disse. Mandaram-no aos sacerdotes e ele ia para lá, e no caminho sentiu-se limpo, como Naaman se sentiu limpo ao banhar-se nas águas de Jordão. E voltou para trás, ainda antes de chegar aos sacerdotes, a encontrar aquele que o tinha mandado e a perguntar-lhe: «Porquê?». E a Fé salvou-o. E ele ficou de facto apanhado radical e interiormente. Então a Fé deixou de ser uma mera aceitação e começou a ser um compromisso intenso, verdadeiro.
Onde estão os outros? Não eram dez? Perguntemos honestamente a quem está aqui: onde estão os milhões de batizados que a Igreja fez? Onde estão as toneladas de primeiras comunhões? Onde estão, as miríades de retiros, cursos, peregrinações e pregações? Onde estão os que voltaram disso? Onde estão os que têm o seu corpo capaz de aceitar as marcas das chagas e da ressurreição de Cristo? Onde estão?
A Fé não é um ato passivo, nem apenas um dom de Deus. A Fé é a aceitação misteriosa duma vida que permanentemente cresce em união com Cristo, ao serviço dos homens. A Fé vê-se! Não andamos nós, irmãos, a perder tempo em tertúlias religiosas, em entretenimentos espirituais inofensivos e que não chegam a ser sinal para ninguém? Perguntava aqui na quarta-feira passada um padre, Professor da Universidade Gregoriana de Roma, se a Igreja não tem sido em certo aspeto como que uma fábrica de sucursais de Coca-Cola. Eu explico: a Igreja tem uma doutrina, tem os sacramentos, e vai abrindo sucursais; e depois nas sucursais põe um funcionário, que é o sacerdote, que faz propaganda e que distribui, não digo a Coca-Cola, mas os sacramentos. E assim se vão multiplicando por aí as agências; e as pessoas veem e andam entretidas, e depois escandalizam o próximo com tantas comunhões sem nenhuma vida, com tantas pregações e retiros sem nenhum comprometimento concreto, com tantas coisas feitas em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e com tanto paganismo em tudo o que somos e temos.
Disseram os padres americanos no Sínodo que esta era a hora da verdade, e que os homens já não aceitavam meias verdades, nem simulações, nem fintas. É a hora da verdade. A Igreja tem que se deixar de andar a empatar padres e tantos leigos em meras pregações e retiros, em meros cultos. Que será isto se lá fora não for qualquer coisa que vá daqui? A Igreja tem que dar sinal. Nós temos que explicar lá fora por que é que estamos aqui. Ou os homens entendem que nós vimos por aquilo que fazemos lá fora, ou é melhor que não venhamos aqui. Desculpai que eu continue a dizer dominicalmente o mesmo. Não é por vos não amar. É até porque não vos quero iludir. Porque não é o que diz «Senhor, Senhor», que entra no Reino dos Céus; não é o que proclama aqui em altos gritos que Deus é redentor e salvador, é o que lá fora salva e redime os homens com toda uma prática de justiça e de bem. Não teremos andado iludidos em entretenimentos espirituais, em tertúlias religiosas, em afadigar-nos completamente em distribuição de sacramentos, que valem mas que não tocam a liberdade interior das pessoas, e que são como água que cai sobre plástico, não apanhando interiormente o gérmen da liberdade do homem e da sua responsabilidade?
(...) Quando João e Pedro, no princípio da Igreja, subiam ao Templo para rezar, estava um coxo à porta do Templo e pediu-lhes esmola. Pedro olhou-o olhos nos olhos e disse-lhe: «Homem, eu não tenho ouro, nem prata...», era o chefe da Igreja, o primeiro Papa, «...eu não tenho ouro nem prata, mas do que tenho te dou: em nome de Jesus Nazaré, levanta-te e põe-te de pé!» E ele pôs-se. E eu pergunto: não será verdade talvez que a Igreja, porque hoje tem muito ouro e prata, não põe ninguém de pé? E continuam todos coxos e incapazes de fazer uma caminhada? Mas a Igreja somos nós! Não estamos nós brutalmente enriquecidos, intelectual e mesmo fisicamente e materialmente? Não estamos nós aburguesados, incapazes de uma autêntica mutação, de uma autêntica transformação interior? Ou estamos nós capazes de fazer experiências concretas da Igreja, por aí fora? Eis a pergunta. Seremos daqueles que são capazes de ficar comprometidos? Ou seremos daqueles que só quando têm dificuldades é que vêm? Por hábito, por tradição ou até por necessidade?
P. Alberto Neto
Capela do Rato, Lisboa, 9.10.71
© SNPC |29.06.12
Da missa para o mundo, do mundo para a missa
(...) Nós podemos, meus irmãos, tentar julgar que a prática da vida religiosa, que o cumprimento dos Sacramentos, que a vivência das festas litúrgicas serão o penhor da nossa vida eterna. Mas, por mais que nós esquadrinhemos a verdade dos Evangelhos, nós não encontramos ninguém à direita do Pai pelo número de missas que ouviu, pela série de comunhões que fez, pelo grupo de novenas que realizou, pelas peregrinações a Fátima que conseguiu fazer. Nem tão-pouco há no Evangelho a mais pequena referência a que iremos para a eternidade no fim de fazer nove primeiras sextas-feiras ou cinco primeiros sábados do mês. A única coisa que o Evangelho nos revela como partilha da eternidade de Deus é muito mais simples mas muito mais difícil, que o Apóstolo nos prevenia com muita verdade, aqui nesta Epístola: «A religião pura e perfeita, aos olhos de Deus, nosso Pai, consiste em socorrer os órfãos e as viúvas, em estar atento aos necessitados, em conservar-se reto no meio das seduções do mundo».
Aquilo que fará a eternidade dos homens é só e apenas a capacidade de eles conseguirem encontrar Deus em todos os homens, Deus no próximo, e Deus, de entre os próximos, no mais próximo e no mais pequeno. A entrada para a direita do Pai está no Evangelho de S. Mateus, da maneira mais clara e mais iniludível: «Anda, bendito de meu Pai: porque tive fome, deste-me de comer; tive sede, deste-me de beber; estava preso, visitaste-me; estava sozinho, sorriste-me; estava doente, foste a minha casa». E a resposta, naturalmente impetuosa, é esta: «Mas onde Te vi eu, Senhor, doente, preso, com fome e com sede?» - «O que fizeste ao mais pequeno, foi a mim que o fizeste».
A religião ainda não ganhou a dimensão social, não no aspeto político da palavra mas no seu aspeto sociológico (...); ainda não entendeu que a direita do Pai é a construção do mundo na justiça, é a construção duma comunidade onde os homens partilhem mais, sejam mais fraternos, tenham mais direito à cultura, tenham mais direito à verdade, tenham mais direito à informação, tenham mais direito a uma capacidade de serem livres até à medida da liberdade dos filhos da terra e dos filhos de Deus.
Se eu fizer muitas comunhões, se eu vier à missa de domingo, se eu tentar batizar todos os filhos de amigos que não são batizados — o que será para interrogarmos no fim se será de se fazer... - mas se eu não tiver caridade, desta caridade que não seja vã nem mentirosa, se eu não trabalhar para rebentar com as estruturas de injustiça onde o homem não vive mas apenas vegeta, se eu não tentar acabar com todos os círculos de ferro à minha volta que não deixam respirar a caridade, a justiça, a liberdade e o amor, eu posso fazer todas as comunhões, todos os sábados do mês, todas as sextas-feiras, todos os dias 13 em Fátima, que não consigo dar nem realizar nem a minha nem a salvação do mundo. Nós podemos reunir no Terreiro do Paço uma multidão extraordinariamente ardorosa que grita glórias a Deus e à Sua existência, ou, naquele grande terreiro de Fátima, à Virgem Maria, como Mãe de Deus. Deixará, talvez, algum «Ah!» de admiração nalguns espíritos. Deixará como que um respeito muito grande por uma multidão que acredita em alguma coisa. Mas podeis ter a certeza: não há uma conversão profunda, como regra, e duradoira, como regra, através desses sinais. Outrora, como hoje, a única coisa que constrói cristãos é uma verdade muito simples: «Vede como eles se amam». Foi assim, segundo o relato dos Atos dos Apóstolos, e terá que ser assim.
E sempre que a Igreja se reduz ao culto, ao ritualismo, para fugir da caridade impressa nas estruturas da vida, nas relações pessoais e humanas, a Igreja refugia-se em xaropes para tirar a tosse mas continua com uma profunda septicemia da qual não conhece a origem do gérmen. Ou nós conseguimos acreditar que o culto que vimos aqui realizar, ou que vamos realizar em cada lugar de culto, é a expressão de uma partilha já realizada anteriormente na vida, ou então a nossa missa, a nossa comunhão são uma mentira.
Eu tenho que ser sincero. Demorei muito tempo a compreender por que foi que Cristo, que podia celebrar a Eucaristia porque era o Sacerdote do Pai, apenas celebrou a Quinta-Feira Santa, depois de três anos intensos de trabalho, de oração, de exemplo, de fadiga, de dor, junto dos seus amigos. E, no entanto, só o descobri há pouco tempo porque fez-me impressão aquela palavra: «Eu desejava ardentemente comer esta Páscoa convosco». Então, porque não a realizou antes? Porque teve de repartir primeiro, com eles, a fraternidade, a palavra, o pão, o ensino, a misericórdia, a sinceridade. Teve que rebentar com toda aquela estrutura brutal de fariseus e saduceus; teve que denunciar todo o mal que não deixava o culto de Deus e o zelo de Deus virem ao de cima; teve que destrinçar toda aquela mistura brutal entre a política e a religião, em que os fortes dominavam os mais fracos e, à base da Lei, acabavam por destituir todos os puros de espírito. E então, quando o Senhor ainda não tinha completado a obra, nem tinha, digamos, a utopia - no mau sentido da palavra - de a querer realizar, mas a quis entregar a nós para que nós realizássemos o que falta à Sua Paixão; nesse momento Ele, então, com verdade e sem mentira pôde pegar no pão, pôde pegar no vinho e pôde olhar-nos olhos no olhos, mesmo àquele que O ia trair, e dizer: «Isto é o meu corpo. Isto é o meu sangue».
A missa, meus irmãos, é a profunda responsabilidade, é a profundíssima responsabilidade dos que só podem partilhar o Pão de Deus se tentam - não quer dizer que consigam - mas se tentam diariamente partilhar o pão da compreensão, do perdão, do amor, da fraternidade, da ajuda, da construção e da denúncia do mal junto das estruturas onde está implicada a sua vida social, política, económica ou cultural. (...)
P. Alberto Neto
Capela do Rato, Lisboa, 11.5.69
© SNPC | 30.06.12
FONTE: http://www.snpcultura.org/da_missa_para_o_mundo_do_mundo_para_a_missa.html

Um apelo aos católicos: da rotina à conversão
(...) Diz um autor que Cristo tinha a nostalgia dos pagãos, mas parece-me que o que Cristo tinha era a nostalgia de espíritos frescos, novos, abertos e impressionáveis à verdade. Estava farto, ao fim de 30 anos, de espiritos tristes, gordos, instalados, satisfeitos. Em Israel, como na Igreja, os espíritos de vez em quando estão habituados, ritualizados, crestados, envelhecidos pela rotina.
Encontramos na Judeia, como hoje na Igreja, praticantes sem alegria e crentes sem irradiação. O que nós podemos definir por cumpridores profissionais da missa, da comunhão e de alguns gestos cristãos. Nada os alertava. A única coisa a que reagiam era às mudanças litúrgicas, disciplinares, morais. Tal e qual como hoje o que os impressiona é uma cruz a mais ou a menos na missa, o padre lavar ou não lavar as mãos, o padre andar com cabeção ou não andar com cabeção. E mesmo assim reagiam. Porque quando havia uma mudança eles eram obrigados a pensar, a sair do marasmo, a fugir ao ritualismo habitual: era ou não era possível curar o homem que tinha a mão seca, ao sábado? - O sábado era o fim! - É ou não possível jejuar neste dia? Qual será no Céu a mulher do homem que casou com várias?
Eram os grandes problemas dos homens crentes do tempo! E tenho verificado que também hoje no liceu são os católicos que normalmente põem estas questões sem importância. Os grandes problemas religiosos são postos, tal como no tempo de Cristo, quase sempre por aqueles que parecem não ter fé. Quase nenhum crente pôs a Cristo um problema religioso fundamental. Apenas dois. Um que lhe perguntou: «Mestre, qual é o meu próximo?», mas o evangelista adverte que a pergunta foi feita para experimentar Cristo. Outro, o jovem rico que lhe perguntou: «Mestre, o que é necessário para ir para a vida eterna?» e que não foi capaz de responder afirmativamente ao convite de Cristo. Este foi o problema de Cristo. Cristo veio exigir de nós um novo tipo de existência. Revelou-nos Deus como Amor e pediu uma fé e uma adesão total a esse Amor. Em vão. Não o conseguiu. (...)
Não sei se já repararam que a nossa religião pode por vezes impedir-nos de sermos religiosos. Nós acreditamos há tanto tempo que já não acreditamos. Nós rezamos há tantos anos que já não rezamos. Nós esperamos há tanto tempo que parece que perdemos a esperança. «A luz brilhou nas trevas mas os homens amaram mais as trevas do que a Luz. Deus veio ao que era Seu e os seus não O receberam». A nossa fé, ou a nossa chamada fé, torna-nos por vezes satisfeitos, habituados, instalados e intolerantes, dogmáticos, homens cheios de soluções para tudo e para todos. Temos de ser integralmente honestos. Ou fazemos da nossa fé não um direito adquirido por família ou recebido de outrem mas uma loucura, uma descoberta, um dinamismo renovado... Ou fazemos nova a fé dos nossos pais e dos nossos avós, tornando-a muito pessoal, ou então cairemos na condição do povo judeu que confundiu fé com certezas. Fé não são certezas. Fé também são dúvidas. Faz parte do ato da fé a dúvida. Fé não são ritos nem gestos nem fórmulas. Por isso Deus disse no Antigo Testamento dos judeus: «Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração anda longe de mim».
O povo judeu é um exemplo para nós que somos a continuidade desses povo. Não tinha o povo judeu excelentes estruturas religiosas? Não havia na Judeia numerosos grupos de prática religiosa quase fanática? Não tinham eles a verdadeira religião? Cristo até disse que não a vinha destruir mas completá-la! Não tinham eles livros inspirados, dos quais disse Cristo que nem um jota nem um til deixariam de ser cumpridos? Isaías, Jeremias, Ezequiel, Oseias, etc.
E no entanto diz-nos São João que apesar das estruturas, apesar da religião verdadeira, apesar de livros inspirados, apesar de profetas, Jesus veio ao que era seu e os seus não O reconheceram. É que as estruturas dos judeus, como muitas vezes as nossas estruturas cristãs, não estimulam, não alertam, não orientam para uma procura, mas ritualizam, criam rotina, destilam instalação, adormecem as pessoas. É uma questão vital. É perigoso pôr este problema. É duro pôr este problema. Os hábitos religiosos podem ser a maior barreira para uma autêntica religião. Há quanto tempo não param? Há quanto tempo não pararam e não perguntaram por que é que vão à missa do domingo? Há quanto não duvidam do que fazer, até para ter fé? Não reflitam apenas quando são atacados. Reflitam com calma.
Não praticamos a religião até por causa, muitas vezes, da religião que temos? Não aderimos à palavra de Deus por tão habituados estarmos de a ouvir? Numa palavra, cuidado com o profissionalismo. É tal e qual como o desporto. O desporto começa-se a viciar quando entra no campo do profissionalismo. A religião também. A religião, por mais que custe, é para amadores. Se não, vamos ver. Quem é que se opôs a Cristo na Judeia? Os profissionais! Fariseus, saduceus, doutores da lei e os grandes devotos! «Este homem é um endemoninhado, este homem é um sedutor das massas. Está a dizer coisas que são contra a Lei. A curar uma pessoa doente em dia de sábado». E Cristo teve que gritar: «Hipócrita, hipócrita, se o teu filho cair a um poço no sábado estás à espera do domingo para o ir tirar?»
Foram os profissionais que sempre atacaram Cristo, e foi por causa do profissionalismo religioso que Cristo morreu numa cruz. E quem é que aderiu a Cristo? Foram os amadores. Foi um leproso, foi um romano, foi a cananeia, foi a samaritana, foi a mulher adúltera e a mulher da Samaria que era prostituta e foi um homem chamado Zaqueu. Foram os amadores, os pobres, os que tinham medo de entrar no Templo, os que ficavam ao fundo, aqueles que não tinham profissão nenhuma, porque para se ser profissional tem que se saber do ofício e eles não sabiam nada. Sabiam que não eram dignos. E foram esses que mostraram, de facto, uma adesão a Cristo. Eu compreendo que Cristo tivesse a nostalgia dos pagãos, embora haja nos cristãos, de vez em quando, almas fracas e puras. Mas Cristo tinha fome daquilo que viu naquele centurião — jamais viu uma fé assim em Israel —, porque aquele homem não era profissional, era militar, e teve de fugir aos seus princípios. Era um romano e teve de se submeter a um judeu. Não tinha religião ou tinha uma religião pagã, e teve que vir ter com o profeta duma religião judaica. Teve que rebentar com barreiras. O que é que pensavam daquele centurião, que era um romano de valor, os que o viam ir ter com um judeu? Riam-se às gargalhadas. Mas ele, deixando todos os preconceitos, venceu as barreiras e foi: «Senhor, cura o meu criado». E o mais importante é que nem foi pedir por um filho. Foi por um simples criado. Que exemplo extraordinário para nós!
E acho que agora compreendemos o Evangelho: «Virão do Oriente, virão do Ocidente, os filhos do rei irão para fora e os que vieram hão de se sentar à mesa com Abraão, Isaac e Jacob no Reino dos céus. Virão as prostitutas e os ladrões. E os filhos serão postos fora». Será porque Deus não quer os filhos? Não. Mas quer que nós, seus filhos, sejamos almas assim. Como a deste centurião. Como a daquele leproso que, sendo samaritano, foi o único que voltou atrás para agradecer. Almas que sejam capazes de chorar sobre a sua rotina, que sejam capazes de chorar os seus hábitos, para que as lágrimas os lavem e, apesar de pecadores, sejam simples e consigam dizer, ao menos hoje, um dia na vida: «Eu não sou digno. Ensina-me a acreditar que nada do que eu fiz até hoje de cristão vale alguma coisa».
P. Alberto Neto Revista Alleluia, 187 (1969)

In Padre Alberto Neto - Testemunhos de uma voz incómoda, Texto Editora (um livro a comprar para ler & fazer)
FONTE: http://www.snpcultura.org/igreja_catolica_da_rotina_a_conversao.html

Entre a beleza do anúncio e a crueza da realidade
Eu sempre gostei da figura de S. Tomé. Como compreendo bem este homem, exigindo o sinal visível da sua adesão! Como ele nos deve falar hoje e agora! Sinal de tantos milhares de homens que têm sede do Deus vivo, do Deus da libertação do homem e do povo, e são iludidos na sua expectativa e reta intenção. Falaram-lhes dum Deus libertador do povo e suas opressões, no Egito e na Babilónia. E que veem eles? Um Deus aliado dos poderosos e dos que têm na mão as forças do domínio, que mantém o povo longe dos bens da Terra, do corpo e do espírito que Deus deixou a todos e para todos.
Ler mais em http://www.snpcultura.org/entre_a_beleza_do_anuncio_e_a_crueza_da_realidade.html

domingo, 24 de junho de 2012

PALAVRA de DOMINGO (dia de São João): há que contextualizá-la para bem a entender e melhor vivê-la!!!

Leituras & missa

EVANGELHOLc 1,57-66.80
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo,
chegou a altura de Isabel ser mãe e deu à luz um filho.
Os seus vizinhos e parentes souberam
que o Senhor lhe tinha feito tão grande benefício
e congratularam-se com ela.
Oito dias depois,
vieram circuncidar o menino
e deram-lhe o nome do pai, Zacarias.
Mas a mãe interveio e disse:
«Não, Ele vai chamar-se João».
Disseram-lhe:
«Não há ninguém da tua família que tenha esse nome».
Perguntaram então ao pai, por meio de sinais,
como queria que o menino se chamasse.
O pai pediu uma tábua e escreveu:
«O seu nome é João».
Todos ficaram admirados.
Imediatamente se lhe abriu a boca
e se lhe soltou a língua e começou a falar,
bendizendo a Deus.
Todos os vizinhos se encheram de temor
e por toda a região montanhosa da Judeia
se divulgaram estes factos.
Quantos os ouviam contar
guardavam-nos em seu coração e diziam:
«Quem virá a ser este menino?»
Na verdade, a mão do Senhor estava com ele.
O menino ia crescendo
e o seu espírito fortalecia-se.
E foi habitar no deserto
até ao dia em que se manifestou a Israel.
AMBIENTE
O “Evangelho da Infância”, na versão de Lucas, põe em paralelo as figuras de João e de Jesus (ao anúncio do nascimento de João – cf. Lc 1,5-25 – corresponde o anúncio do nascimento de Jesus – cf. Lc 1,26-38; à história do nascimento de João – cf. Lc 1,57-80 – corresponde a história do nascimento de Jesus – cf. Lc 2,1-21). Este paralelismo serve para iluminar a relação existente entre os dois – uma relação que a reflexão eclesial foi aprofundando e ampliando desde as tradições mais antigas.
Na época em que Lucas escreve, as comunidades cristãs conhecem os discípulos de João, cuja actividade proselitista chegou à Ásia Menor (cf. Act 18,24-19,7). Provavelmente, havia quem confundia João com o Messias… Neste contexto, a comunidade lucana quis deixar claro o papel relevante de João na economia da salvação mas, ao mesmo tempo, afirmar a subordinação de João a Jesus… A superioridade de Jesus em relação a João está, aliás, bem patente na diferença entre o relato do anúncio do nascimento de João e o relato do anúncio do nascimento de Jesus; está também patente no encontro de Maria com Isabel, em que a própria mãe de João proclama Maria como a mãe do seu Senhor, reconhecendo a inferioridade do seu filho em relação a Jesus (cf. Lc 1,39-45); está, ainda, patente no relevo dado pelo evangelista ao relato do nascimento de Jesus (que é longo, rico de pormenores e está carregado de teologia) em detrimento do relato do nascimento de João (que é contado em poucas linhas, sem grande riqueza de detalhes).
MENSAGEM
O relato começa com a descrição do quadro de alegria que acolheu o nascimento do filho de Zacarias e de Isabel (vers. 57-58). A alegria – um dos elementos característicos da teologia de Lucas – significa que chegaram os tempos novos, os tempos do cumprimento das promessas de Deus, o tempo da misericórdia de Deus.
Por alturas da circuncisão (no oitavo dia depois do nascimento, data legal da circuncisão, segundo Gn 17,12 e Lv 12,3), põe-se a questão do nome que irá ser dado ao menino (no Antigo Testamento, o nome é dado à nascença – cf. Gn 4,1; 21,3; 25,25-26; mas aqui aparece o costume helenista, assumido pelo judaísmo mais recente). Os vizinhos e parentes dão como adquirido que o menino se chamará como o pai. No entanto, Isabel e Zacarias escolhem um outro nome: João (sugerido pelo anjo, aquando do anúncio do nascimento do menino – cf. Lc 1,13). O nome significa literalmente “o Senhor concede graça”: o menino é um “dom de Deus” e o primeiro sinal da graça que Deus vai derramar sobre os homens, através do Messias que está para chegar. Por outro lado, o acordo da mãe e do pai sobre um nome que não era familiar aparece como divinamente inspirado.
Diante do nascimento de João, Lucas nota o espanto e o temor de todos os presentes. O espanto (vers. 63) é a reacção habitual das multidões diante dos milagres (cf. Lc 8,25.56; 9,43; 11,14; Act 3,10) e de outras manifestações divinas (cf. Lc 24,12.41; Act 2,7); o “temor” (vers. 65) define a atitude normal do homem diante do mistério, do transcendente, do divino (Lucas fará referência ao “temor” diante das revelações – cf. Lc 2,9; 9,34 – dos milagres – cf. Lc 5,26; 7,16; 8,25.37; 24,5.37 – e de outras intervenções divinas – cf. Act 5,5.11; 19,17).
O quadro completa-se com a indicação de que, “de facto, a mão do Senhor estava com ele” (vers. 66). A expressão inspira-se no Antigo Testamento, onde serve para exprimir a protecção de Deus sobre os seus fiéis (cf. Sal 80,18; 139,5) e a sua acção sobre os profetas (cf. 1 Re 18,46; 2 Re 3,15; Ez 1,3; 3,14.22; 8,1). Aqui, significa que João tem a protecção de Deus e que Deus age nele. Tudo isto define um quadro de intervenção e de presença de Deus, mostrando que toda a existência de João se compreende à luz da iniciativa divina.
No final da leitura (vers. 80a), apresenta-se uma fórmula usada para resumir a infância de certas figuras que desempenharam papéis de referência na história do Povo de Deus (Sansão – cf. Jz 13,24-25; Samuel – cf. 1 Sm 2,26). Há também uma referência à ida de João para o deserto (vers. 80b); deserto é o lugar onde Israel fez a sua experiência de encontro com o Deus libertador, onde sentiu de forma especial o amor de Deus e onde o Povo assumiu o compromisso da aliança: é essa experiência que João vai fazer, para depois a apresentar ao seu Povo. Além disso, a referência ao deserto prepara a próxima aparição de João no Evangelho, cerca de trinta anos depois (cf. Lc 3,1-3).
No relato transparece, de forma especial, a centralidade de Deus em todo o processo. João é um “dom de Deus”, vem com uma missão de Deus e é um sinal da presença de Deus no meio do seu Povo.
ACTUALIZAÇÃO
Para a reflexão, considerar as seguintes linhas:
• A história de João fala-nos, em primeiro lugar, de um Deus que ama os homens e que tem para lhes oferecer um projecto de salvação e de vida plena; é por isso que Ele inventa formas humanas de vir ao encontro dos homens, de lhes fazer chegar a sua Palavra e as suas propostas, de os questionar e interpelar com a Palavra profética… Ao celebrar esta solenidade, estamos a celebrar o Deus/amor, que se revela na figura do profeta João. Eu tenho sido sempre, para os meus irmãos, um “dom de Deus”, um sinal vivo e profético do Deus que os ama e que lhes oferece a salvação? Os “vizinhos e parentes” encontram em mim a manifestação de Deus?
• No relato do nascimento de João, transparece a centralidade de Deus na vida do profeta, desde o seio materno. O profeta é um homem de Deus, cuja vida tem origem em Deus, cuja vocação só faz sentido à luz de Deus, cujo alimento é o próprio Deus, cujas palavras são palavras de Deus. Tenho consciência de que Deus tem de estar no centro da minha vida e que a minha vocação profética só faz sentido se eu aceitar viver numa ligação “umbilical” com Deus?
• Embora os textos de hoje não refiram essa dimensão, convém, nesta solenidade, reflectir acerca da forma como João Baptista viveu a sua missão profética. São particularmente questionantes o seu despojamento, a sua radicalidade, a sua entrega total à missão, a coragem com que ele enfrentou os poderosos, a sua capacidade de dar a vida para defender a verdade. Estas características fazem parte do “caminho profético”.
• No relato de Lucas, fica bem expressa a diferença entre João e Jesus… João não é a salvação; ele veio, apenas, dar testemunho da chegada iminente da salvação. O profeta precisa de ter consciência do seu papel e do seu lugar: ele não é “a luz”; a sua missão não é levar os homens a aderir à sua pessoa, mas à pessoa de Jesus. O profeta deve ter cuidado para não usurpar, nunca, o lugar de Deus.
• Apesar do sofrimento, das perseguições, dos fracassos, a missão do profeta é ser “luz das nações”, para que a salvação de Deus “chegue aos confins da terra”. O meu programa de vida é, verdadeiramente, ser uma luz que ilumina o mundo e que dá esperança aos homens? Os pobres, os marginalizados, os excluídos, os humildes, os explorados, os injustiçados encontram em mim o testemunho da salvação de Deus que os liberta e que os salva?
• Para que a Palavra proclamada seja Palavra de Deus, é necessário que eu viva uma relação de comunhão e de intimidade com Deus: só nesse diálogo serei impregnado da vida de Deus, me aperceberei dos projectos de Deus e poderei anunciá-los aos homens. Vivo nesta relação próxima, dialogante, com Deus? Aquilo que transmito e proclamo são Palavras de Deus, ou são as minhas palavras, os meus esquemas, os meus interesses pessoais?
• O profeta é alguém chamado a testemunhar Deus no meio dos homens, mesmo quando os homens preferem ignorar Deus e edificar a sua vida à margem de Deus. João Baptista, o profeta, assumiu plenamente a missão de testemunhar Deus: convocou os homens para o encontro com o Deus incarnado, convidou os homens a despirem o egoísmo, o orgulho, a auto-suficiência, a violência, a ganância, e a preparar o coração para acolher a proposta de salvação que Deus veio fazer, em Jesus. Este programa não perdeu actualidade: o apelo à conversão, à revolução das mentalidades e das atitudes e o convite a acolher a libertação que Deus nos oferece continuam a fazer sentido e a ser o núcleo essencial do anúncio profético. É este o meu programa?
• O profeta é um instrumento simples, limitado e frágil, através de quem Deus age no mundo. Isto revela, por um lado, que Deus se manifesta na simplicidade e na fraqueza e que é aí que devemos procurá-l’O (Ele nunca está no poder, na riqueza, na força, na prepotência, na imposição); isto revela, por outro lado, que o profeta não tem de que se orgulhar ou envaidecer: não são as suas qualidades que são determinantes, mas sim a acção de Deus.
• O “caminho profético” não passa por concentrar em si próprio a atenção das multidões, exibir-se e receber a adoração das pessoas, ser admirado e aclamado, conseguir sucesso e aparecer nas revistas sociais, promover a imagem e tratar por tu os que mandam no mundo, exibir brilhantes qualidades e criar clubes de fãs. O profeta é o “servo” de Deus, que se esconde atrás do cenário enquanto aponta os focos para Deus e cuja função é fazer incidir em Deus os olhos dos homens… Não é o profeta que deve aparecer; mas, nele, é Deus que os homens devem encontrar.