"Porquê?" & "Para quê?"

Impõe-se-me, como autor do blogue, dar uma explicação, ainda que breve, do "porquê" e do "para quê" da sua criação. O título já por si diz alguma coisa, mas não o suficiente. E será a partir dele, título, que construirei esse "suficiente". Vamos a isso! Assim:
Dito de dizer, escrever, noticiar, informar, motivar, explicar, divulgar, partilhar, denunciar, tudo aquilo que tenho e penso merecer sê-lo. Feito de fazer, actuar, concretizar, agir, reunir, construir. Um pressupõe e implica, necessariamente, o outro - «de palavras está o mundo cheio». Se muitos & bons discursos ditos, mas poucas ou nenhumas acções que tornem o mundo, um lugar, no mínimo, suportável para se viver, «olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço», então nada feito!!!

«Para bom entendedor meia palavra basta» - meu dito meu feito, palavras e motivo.





























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domingo, 22 de abril de 2012

Falsos Deuses

«[No mundo greco-romano,] cada cidade adorava as suas divindades preferidas e construía santuários à volta de imagens de culto. Quando Paulo foi a Atenas, viu que esta estava literalmente cheia de imagens dessas divindades (Atos 17,16). O Pártenon de Atenas ofuscava tudo o resto, mas havia outras divindades representadas em cada espaço público. Havia Afrodite, a deusa da beleza; Ares, o deus da guerra; Ártemis, a deusa da fertilidade e da riqueza; Vulcano, o deus forjador e do fogo.
A nossa sociedade contemporânea não é fundamentalmente diferente dessas sociedades antigas. Cada cultura é dominada pela sua própria série de ídolos. Cada uma tem os seus «sacerdócios», os seus totens e os seus rituais. Cada uma tem os seus santuários – quer se trate de torres de escritórios, de spas e ginásios, de estúdios ou de estádios –, onde têm de se fazer sacrifícios, a fim de obter as bênçãos de uma boa vida e de afastar as catástrofes. Não serão esses os deuses da beleza, do poder, do dinheiro e da realização pessoal, precisamente aquelas coisas que assumiram proporções míticas na nossa vida individual e na nossa sociedade?
Podemos não nos ajoelhar fisicamente frente à estátua de Afrodite, mas muitas jovens mulheres de hoje caem na depressão e em distúrbios alimentares, devido a uma preocupação obsessiva com a sua imagem física. Podemos não queimar incenso a Ártemis, mas, quando o dinheiro e a carreira são elevados a proporções cósmicas, fazemos uma espécie de «sacrifício de crianças», negligenciando a família e a comunidade para alcançar um posto mais elevado na empresa, e para ganhar mais dinheiro e prestígio. (…)
Mais do que os outros ídolos, o êxito pessoal e a autorrealização produzem um sentimento de que somos deuses, de que a nossa segurança e valor dependem da nossa própria sabedoria, força e desempenho. Para sermos os melhores, naquilo que fazemos, estar no topo da pirâmide significa que ninguém é como nós. Nós somos supremos.
Um sinal de que fabricámos um ídolo do êxito é o falso sentimento de segurança que isso nos transmite. Os pobres e marginalizados esperam sofrer, sabem que a vida sobre a terra é «miserável, brutal e curta». As pessoas bem sucedidas ficam muito mais chocadas e transtornadas com os problemas. Como pastor, tenho ouvido muita gente do topo da escala social dizer: «A vida não devia ser assim», quando se confrontam com a tragédia. Nos meus anos de pastor, nunca ouvi essa linguagem da boca dos operários e dos pobres.
O falso sentimento de segurança provém de deificarmos as nossas realizações e de esperarmos que estas nos preservem das preocupações da vida de uma forma que só Deus pode fazer. Outro sinal de que fizemos da autorrealização um ídolo é que ela distorce a sua visão sobre si próprio. Quando as suas realizações servem de base ao seu valor como pessoas, elas podem dar azo a uma visão inflacionada das suas capacidades.»

Timothy Keller
In Falsos deuses, ed. Paulinas
20.04.12

sábado, 14 de janeiro de 2012

CONFESSIONÁRIOS VAZIOS, SPAS (centros de relax) CHEIOS

Recentemente um sacerdote lamentava-se de passar horas a fio no confessionário sem que ninguém aparecesse. Ora, num país que se diz maioritariamente católico, este fenómeno merece reflexão, pois se os confessionários estão vazios os “spas” são cada vez mais procurados. Por conseguinte, talvez não seja por acaso que Portugal ocupe um indecoroso 32º lugar no Índice de Percepção da Corrupção, relativo a 2011, divulgado pela Transparência Internacional, de um total de 183 paísesavaliados.
Numa sociedade cada vez mais secularista, a noção entre o bem e o mal tem vindo a esbater-se. Se recusarmos assumir que o bem e o mal são realidades naturais, como é que faz sentido falar-se em justiça? Existem interesses políticos e económicos que visam extinguir da nossa sociedade uma certa consciência moral. É o principio de todas as tiranias: prometem de início o cumprimento de todos os desejos humanos, dando rédea solta a todos os instintos e apetites, mas rapidamente se apoderam da liberdade de um povo.
E foi o que aconteceu connosco. Portugal não perdeu apenas soberania com a dívida pública, antes disso, perdeu um depósito moral que urge repor. A televisão não ficou indiferente a este fenómeno, explicando-se deste modo o florescimento de programas televisivos moralmente degradantes, como “a casa dos segredos”, nos quais, em vez de se enaltecer as virtudes humanas, se idolatram os vícios privados e se promove a boçalidade. Escasseiam as pessoas que falam com a mínima convicção sobre o bem e o mal e quando alguém expressa este tipo de opinião ela é escarnecida,apontada como fundamentalista – como se fosse possível haver alguma tolerância perante o lamaçal da degradação humana.
Temos assistido a um aumento da corrupção, criando-se a percepção perigosa de que aqueles que ontem foram as vítimas, se tiverem oportunidade, convertem-se amanhã em carrascos. Impera o principio justificativo “ todos fazem assim...”. E quando alguém deixa de acreditar nos princípios é porque deixou de os ter. A corrupção não se combate apenas com leis gerais, numa planificação em grande escala. A corrupção só se combate eficazmente quando o indivíduo reconhece que o mal está dentro de si próprio. Mas como será possível alcançar este objectivo se apenas se promove o auto-endeusamento?
Esta crescente idolatria pelos centros de rejuvenescimento, relaxamento e anti-stresse é psiquicamente estéril. A fecundidade está no acto de nos questionarmos quanto ao que está certo e se, porventura, nos teremos equivocado; a fecundidade está na reflexão pessoal e no desejo de enriquecer as nossas qualidades humanas. Não é possível melhorarmos enquanto país se não melhorarmos enquanto pessoas. E este elementode mudança não está ao alcance de nenhum governo.
Um país para  ser livre e próspero terá de fomentar a autocrítica e o pensamento,defender uma consciência moral, assumir que existe um bem-comum e que todos nós somos responsáveis pela sua conquista. Devido à constante correria é provávelque hajam muitas pessoas que nem sequer tenham consciência disso. É preciso travar esta agitação febril para as soluções fáceis, penetrando na raiz do problema. Pior do que termos uma praga de “spas” é entronizarmos a decrepitude e entregarmo-nos submissos à época viciosa em que vivemos.
Pedro Afonso
Médico Psiquiatra

A propósito, 3 lembranças:
1. Marcha do Orgulho Gay: 1 milhão de pessoas;
2. Marcha contra a corrupção. 2.500 pessoas;
3. Gala da "Casa dos Segredos", o programa mais visto na passagem de ano: 1.348.300 espectadores