"Porquê?" & "Para quê?"

Impõe-se-me, como autor do blogue, dar uma explicação, ainda que breve, do "porquê" e do "para quê" da sua criação. O título já por si diz alguma coisa, mas não o suficiente. E será a partir dele, título, que construirei esse "suficiente". Vamos a isso! Assim:
Dito de dizer, escrever, noticiar, informar, motivar, explicar, divulgar, partilhar, denunciar, tudo aquilo que tenho e penso merecer sê-lo. Feito de fazer, actuar, concretizar, agir, reunir, construir. Um pressupõe e implica, necessariamente, o outro - «de palavras está o mundo cheio». Se muitos & bons discursos ditos, mas poucas ou nenhumas acções que tornem o mundo, um lugar, no mínimo, suportável para se viver, «olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço», então nada feito!!!

«Para bom entendedor meia palavra basta» - meu dito meu feito, palavras e motivo.





























sábado, 14 de janeiro de 2012

Os maus exemplos vêm "de cima" & Portugal, um milagre "resiliente"

A dr.ª Manuela Ferreira Leite, eivada daquela caridade cristã que define o seu doce coração, disse, na SIC Notícias, num curioso programa dirigido por Ana Lourenço, que os doentes com mais de 70 anos, devem pagar hemodiálise. Infere-se, por oposição, o seguinte: quem não tiver dinheiro, que morra!, sobretudo a partir dos 70. Nessa altura, já cá não fazem falta nenhuma. Um pouco assustado, António Barreto confessou ter aquela idade fatal. E, mesmo sem o dizer, o dr. Balsemão tem mais de 70. Os celtas resolviam a questão com a presteza de quem não tem tempo a perder: atiravam os velhos dos penhascos.
Aqui, corta-se nos vencimentos dos reformados, aumentam-se as taxas moderadoras e até os enterros estão mais caros, devido aos impostos. A dr.ª Manuela tem dito coisas que bradam aos céus. Aquela declaração foi uma delas. Já antes, a fim de se pôr uma certa ordem no caos português sugerira a interrupção, por modestos seis meses, da democracia. A senhora esteve à beira de se tornar presidente do PSD e, por decorrência, acaso as bússolas da fortuna andassem avariadas, primeira-ministra. Que susto!, embora este, em que vivemos, não seja menor.
"Contra-Corrente" é o nome do programa em referência, no qual um luminoso conjunto de sábios discreteia sobre o nosso mundo e os nossos destinos. Devo dizer aos meus pios leitores que aguardei, arfante de curiosidade, a opinião dos preopinantes. Nada que as pessoas não soubessem. Com este tipo de programação, repetitiva e inócua, a Impresa não vai lá. Com excepção de Sobrinho Simões, que foi dizendo coisas válidas por acertadas, os outros debitaram mais do mesmo que todos dizem. Até António Barreto só disse banalidades. Vitorino, coitado!, é uma irrelevância.
O tropo que interessava seria a discussão sobre a promiscuidade entre política, negócios e partidarite. A ida em massa, para a administração da EDP, de militantes destacados do PSD e do CDS mereceu umas desatenções embargadas. Entretanto, soube-se que, para a empresa Águas de Portugal, vão dois militantes do PSD. As coisas são como são, mas não deveriam sê-lo, após as veementes declarações de princípio do dr. Passos Coelho, que se antagonizava com os "jobs" concedidos pelo PS aos seus "boys." Na realidade, estamos fartos desta vilanagem endémica. A política tornou-se a questão central do regime; mas, em vez de se abordar e analisar o problema, as minudências transformam-se em campanha de jornais, como o assunto da Maçonaria.
Pleitear-se a causa de que os detentores de cargos públicos terão de revelar as suas opções filosóficas pode abrir a caixa de Pandora, cujos resultados são imprevisíveis. Só a alusão a esta dissimulada caça à bruxas faz arrepiar. É claro que este fogacho não passa de isso mesmo: um fogacho (como o espaço atribuído a Paco Bandeira, um caso doméstico, com a importância menor que a sua própria natureza merece) para remover das cabeças das pessoas os tormentos que as apoquentam. O jornalismo português entrou numa fase degenerativa perturbadora. A impreparação demonstrada pelos seus empregados é de fugir. Não se trata de jornalistas, embora, certamente, todos agitem como credencial os níveis das graduações. Seria impensável, perante as situações políticas vigentes, as afirmações insanas de altos dirigentes partidários e a pouca-vergonha a que se assiste, no regabofe das nomeações - que uma Imprensa responsável e decente estivesse calada. Mas está.
Pergunto-me e os meus velhos amigos e camaradas perguntam-se: que ensinam, nos cursos de jornalismo, a estes jovens? Tornou-se moda, nas televisões, sem excepção, tratar as pessoas pelo primeiro nome, modo abusivo de se forçar uma intimidade tão absurda, como irrespeitosa, por despropositada. Assim como esta falsa familiaridade está longe de corresponder à teia reticular de afecto, necessária entre receptor e mensageiro, a preguiça no estudo, o desleixo pelo idioma, a ignorância impante fornecem um retrato muito poço lisonjeiro do jornalismo que se pratica.
Os exemplos provindos "de cima" são de molde a fugirmos deles a sete pés. A cultura do facilitismo, do dinheiro e do mais feroz individualismo parece ter adquirido carta de alforria. Quando se fazem exigências atrozes aos sectores mais débeis da sociedade portuguesa, e se tornam públicos os vencimentos faraónicos de alguns sujeitos, procedentes dos partidos "de poder", tudo é permitido. Como se diz nos "Irmãos Karamazov", de Dostoievski. W
in http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=531441

Portugal, um milagre resiliente. (Sir Ken Robinson e a Royal Society of Arts)
Como é que havemos de educar as nossas crianças para a economia do século XXI, quando nem sequer sabemos antecipar o estado da economia no final da próxima semana?" Sir Ken Robinson, autor, conferencista, pedagogo.
Opinião pessoal, mas transmissível: Portugal, como país auto-determinado, é um milagre resiliente. Nenhum país teve de sobreviver tanto à ignorância das suas elites socioeconómicas como Portugal. Equivale isto a dizer que, atendendo ao desvario irresponsável dos líderes públicos, e ao desprezo profundo pelo conhecimento e pelo mérito que o tecido político-económico fomenta com sinistro sucesso provinciano, ter esperança é um risco. Alguém fará, um dia, justiça à dedicação intrínseca da maioria dos nossos cidadãos ao sítio onde vivem (e querem viver), e aí começará o fim do pacto de tolerância à boçalidade cínica do triângulo formado pelos poderes económico, político e mediático.
A "Royal Society for the Encouragement of Arts, Manufactures and Commerce" tem sede em Londres e foi fundada em Covent Garden em 1754. Abreviadamente conhecida como "The RSA - The Royal Society of Arts", dedicou-se ao longo destes 250 anos de História ao fomento do conhecimento e da inovação, da cultura, da cidadania, da arte, da criatividade. O seu arquivo é uma das muitas razões válidas para uma visita atenta, com muito mais para ver e sentir do que poderia caber nesta crónica. Entre muitos conteúdos irrepreensivelmente tratados e colocados à disposição, está o conjunto de animações "RSA Animate". Estes trabalhos de animação a duas dimensões, muitas vezes simples - como um lápis que rabisca o que está a ser narrado, por exemplo - são quase sempre de uma eficácia cénica incrível. Atingindo milhões de visualizações "online" (há, inclusivamente, uma aplicação para "tablet" ou "smartphone" disponível gratuitamente), um dos mais surpreendentes é o "rabisco inspirado" que acompanha a conferência de Sir Ken Robinson, "Changing Education Paradigms" (Mudando os Paradigmas da Educação). Nesta, o pedagogo nascido em Liverpool, defende a mudança que considera essencial fazer na política de educação, para o futuro da Economia. O resultado da animação "a posteriori" do áudio da palestra é extraordinário e incisivo. Entre diversos postulados "animados" neste curto vídeo, está o de que muito do que se conseguiu, em termos de motivação e razão de ser para a obtenção de uma licenciatura, por exemplo, está perdido e deve ser reinventado, pois desapareceram as garantias de segurança dadas aos jovens pela simples frequência de um ciclo de ensino completo. Os nossos jovens perderam o estímulo central para se dedicarem à escola, que era o da emancipação económica; pensar que o problema está "neles" que obedecem, em vez de "nós" que mandamos, é um preconceito que não resolverá nada, apenas criará mais clivagem social e custos acrescidos nas contas públicas do futuro. O vértice empobrecedor deste preconceito está na separação artificial e dogmática entre o que é "intelectual" e o que é "económico", que chegou ao sistema de ensino por mimese dos nossos vícios e fragilidades, e deve ser reequacionado. Impossível de reverter?
Portugal conseguiu, no século XX, baixar a sua percentagem de analfabetismo de 33,6% (1970) para 9% (medidos já em 2001). É urgente assumir no discurso público este nível de exigência histórica e de responsabilização, e é de uma fina ironia - só possível num território ambíguo como a "política" - que não se coloque a importância destes factos históricos na frente de toda a acção cívica, numa altura em que o que está em jogo, precisamente, é se conseguimos (ou não) reeducar uma Economia que, neste momento, já é só Finança e prejuízo; felizmente, a grandiosidade dos feitos, quando comparada à futilidade dos líderes, postula bem de como tudo é possível neste milagre resiliente. Essa é a esperança, esse é o risco.

A GOVERNANÇA: a pouca-vergonha dos "Sem Vergonha",

Se estes são considerados suspeitos, "os críticos" do costume ...
1º. http://aeiou.expresso.pt/passos-coelho-e-um-ibluffi-e-mentiu-aos-portugueses=f699064

2º. http://aeiou.expresso.pt/manuela-ferreira-leite-e-um-comboio-indiano-a-descarrilar=f699242

3º. http://aeiou.expresso.pt/estou-me-a-marimbar-para-a-itroikai=f698845

4º. http://aeiou.expresso.pt/a-filha-de-braga-de-macedo-e-o-nosso-dinheiro=f699215

... já o mesmo se não pode dizer destes insuspeitos, "os apoiantes" do costume.
5º. http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=531347&pn=1

6º. http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=531277

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CONFESSIONÁRIOS VAZIOS, SPAS (centros de relax) CHEIOS

Recentemente um sacerdote lamentava-se de passar horas a fio no confessionário sem que ninguém aparecesse. Ora, num país que se diz maioritariamente católico, este fenómeno merece reflexão, pois se os confessionários estão vazios os “spas” são cada vez mais procurados. Por conseguinte, talvez não seja por acaso que Portugal ocupe um indecoroso 32º lugar no Índice de Percepção da Corrupção, relativo a 2011, divulgado pela Transparência Internacional, de um total de 183 paísesavaliados.
Numa sociedade cada vez mais secularista, a noção entre o bem e o mal tem vindo a esbater-se. Se recusarmos assumir que o bem e o mal são realidades naturais, como é que faz sentido falar-se em justiça? Existem interesses políticos e económicos que visam extinguir da nossa sociedade uma certa consciência moral. É o principio de todas as tiranias: prometem de início o cumprimento de todos os desejos humanos, dando rédea solta a todos os instintos e apetites, mas rapidamente se apoderam da liberdade de um povo.
E foi o que aconteceu connosco. Portugal não perdeu apenas soberania com a dívida pública, antes disso, perdeu um depósito moral que urge repor. A televisão não ficou indiferente a este fenómeno, explicando-se deste modo o florescimento de programas televisivos moralmente degradantes, como “a casa dos segredos”, nos quais, em vez de se enaltecer as virtudes humanas, se idolatram os vícios privados e se promove a boçalidade. Escasseiam as pessoas que falam com a mínima convicção sobre o bem e o mal e quando alguém expressa este tipo de opinião ela é escarnecida,apontada como fundamentalista – como se fosse possível haver alguma tolerância perante o lamaçal da degradação humana.
Temos assistido a um aumento da corrupção, criando-se a percepção perigosa de que aqueles que ontem foram as vítimas, se tiverem oportunidade, convertem-se amanhã em carrascos. Impera o principio justificativo “ todos fazem assim...”. E quando alguém deixa de acreditar nos princípios é porque deixou de os ter. A corrupção não se combate apenas com leis gerais, numa planificação em grande escala. A corrupção só se combate eficazmente quando o indivíduo reconhece que o mal está dentro de si próprio. Mas como será possível alcançar este objectivo se apenas se promove o auto-endeusamento?
Esta crescente idolatria pelos centros de rejuvenescimento, relaxamento e anti-stresse é psiquicamente estéril. A fecundidade está no acto de nos questionarmos quanto ao que está certo e se, porventura, nos teremos equivocado; a fecundidade está na reflexão pessoal e no desejo de enriquecer as nossas qualidades humanas. Não é possível melhorarmos enquanto país se não melhorarmos enquanto pessoas. E este elementode mudança não está ao alcance de nenhum governo.
Um país para  ser livre e próspero terá de fomentar a autocrítica e o pensamento,defender uma consciência moral, assumir que existe um bem-comum e que todos nós somos responsáveis pela sua conquista. Devido à constante correria é provávelque hajam muitas pessoas que nem sequer tenham consciência disso. É preciso travar esta agitação febril para as soluções fáceis, penetrando na raiz do problema. Pior do que termos uma praga de “spas” é entronizarmos a decrepitude e entregarmo-nos submissos à época viciosa em que vivemos.
Pedro Afonso
Médico Psiquiatra

A propósito, 3 lembranças:
1. Marcha do Orgulho Gay: 1 milhão de pessoas;
2. Marcha contra a corrupção. 2.500 pessoas;
3. Gala da "Casa dos Segredos", o programa mais visto na passagem de ano: 1.348.300 espectadores

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Asneira colossal

in http://rr.sapo.pt/opiniao_detalhe.aspx?fid=34&did=46232

Esta foi a semana em que o Governo saltou do desvio colossal para a asneira colossal. Deixar nomear um pacote de nomes ligados ao PSD e ao CDS para lugares super bem pagos, quando se ameaça pedir ainda mais austeridade aos portugueses, é um erro político de palmatória. Obrigar os ministros a voarem em económica passou a ser uma banda desenhada.
12-01-2012 8:52 por Ângela Silva
Pedro Passos Coelho tem estado calado e ainda não disse de sua justiça sobre as polémicas que, subitamente, lhe começaram a manchar a folha de serviço. Primeiro, é de mau gosto o austero ministro das Finanças permitir que o país saiba por uma fuga de informação para um jornal que o défice vai voltar a derrapar. Vítor Gaspar foi confuso nas explicações e o cidadão comum terá retido apenas duas coisas: voltámos a falhar nas contas e o mais certo é vir aí mais castigo.
A notícia já não era boa, mas, a par do regabofe das nomeações, choca mais. O Estado – que Passos Coelho sempre disse querer ver fora dos negócios, das empresas e dos tachos – deixou, sem piar, que um pacote de notáveis do PSD e do CDS ascendesse aos mais altos cargos da EDP e das Águas de Portugal. Dizem que o Governo não foi tido nem achado. É tão inverosímil que não se acredita. Mas, se fosse verdade, ainda era pior: só um primeiro-ministro muito ingénuo, cansado ou alheado permitiria que a dança das cadeiras na última jóia da coroa vendida pelo Governo se passasse à sua margem. As trapalhadas com a maçonaria, as secretas e os conluios entre maçons, deputados e espiões já parecem o menos. A perda de credibilidade do discurso do primeiro-ministro, essa sim, é preocupante se não for travada a fundo. E isso exige que Passos fale.
Ser fiável não foi importante na ascensão de Pedro Passos Coelho ao poder, só por fazer o contraponto com Sócrates. Ser fiável é vital para conseguir impor, com legitimidade reforçada, reformas e mudanças duras, há anos adiadas no país.
Esta semana, o Governo cheirou a mais do mesmo. E ser mais do mesmo, em tempo de vacas magras, é uma asneira colossal.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

"UM POEMA POR SEMANA" (5/15)

Estreou, no Dia Mundial da Poesia (21 de Março):15 poemas em 75 dias, ditos por 75 pessoas Sophia de Mello Breyner Andresen, Cesário Verde, Ruy Belo, Fernando Pessoa, Miguel Torga, Sá de Miranda, António Nobre, Alexandre O'Neill, Luís Vaz de Camões, Jorge de Sena, José Régio, David Mourão-Ferreira, António Gedeão, Eugénio de Andrade, Mário Cesariny.
O que têm em comum estes poetas? Para lá do facto de estarem mortos? Todos marcaram indelevelmente a história da literatura em língua portuguesa.
Mais do que isso: marcaram o nosso imaginário e condicionaram a nossa identidade! Ainda que, muitas vezes, disso não tenhamos consciência...
Os "dizedores":
São homens e mulheres, novos e velhos, falantes de português. Gente que tem em comum gostar MUITO de poesia.
"Um Poema por Semana" é uma ideia de Paula Moura Pinheiro.
Escolha dos poemas: José Carlos de Vasconcelos, jornalista com longa história na ação cultural em Portugal e diretor do clássico "Jornal de Letras";
Direção artística, realização e cenografia: Paulo Braga, um criativo sénior do mundo da Publicidade;
Direção de Casting: João Gesta, o apaixonado inventor de Quintas de Leitura no Teatro do Campo Alegre, no Porto; e por Gonçalo Riscado, Sandra Silva e Alexandre Cortez responsáveis pelo Festival Silêncio;

Para que fiquem claros os critérios com que trabalhámos em "Um Poema por Semana": nos poemas de autores que viveram há séculos, como Sá de Miranda ou mesmo Cesário Verde, há, por vezes, discrepâncias entre as diversas fixações dos seus textos. Nesses casos, aceitámos que os "diseurs" usassem a fixação do poema que melhor conhecem. Mas cuidámos que os textos dos poemas que aqui publicamos correspondem às fixações mais reconhecidas pela academia - se é para conhecer melhor o poema, que seja na sua versão mais consensual.

AS PALAVRAS INTERDITAS, Eugénio de Andrade



Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.




Eugénio de Andrade







1923-2005
Poesia
Eugénio de Andrade
Fundação Eugénio de Andrade

É EXTRA+ORDINÁRIO

Pedro Santos Guerreiro
As nomeações para a EDP são um mimo. Catroga, Cardona, Teixeira Pinto, Rocha Vieira, Braga de Macedo... isto não é uma lista de órgãos societários, é a lista de agradecimentos de Passos Coelho. O impudor é tão óbvio nas nomeações políticas que nem se repara que até o antigo patrão de Passos, Ilídio Pinho, foi contratado.
Estava a correr bem de mais... Um grande negócio para o Estado, uma privatização que reforça a EDP, a gestão reconduzida. Mas a carne é fraca. É sempre fraca. Só falta uma proposta na Assembleia Geral da EDP: mudar o nome de Conselho Geral e de Supervisão (CGS) para o de Loja do Governo.
É extraordinário como uma empresa em vias de total privatização se consome na absurda politização. E é surpreendente: a recondução de
António Mexia fora uma demonstração de isenção de Passos Coelho: este Governo não gosta de Mexia nem do poder da EDP (basta ler a entrevista de hoje do secretário de Estado da Energia neste jornal) mas quando os chineses perguntaram se o queriam, Passos não se opôs - remeteu a decisão para os accionistas. Ingenuidade do primeiro-ministro? Não, ingenuidade nossa. A troca foi esta lista de famosos da política. Porquê?
Eis porquê: primeiro, os chineses concebem as estruturas de poder ancoradas no Estado, pelo que acharão normal a sofreguidão de emissários políticos; segundo, os chineses trabalham em ciclos longos, pelo que os próximos três anos de mandato são, como na anedota, um "deixa-os poisar" que deixará crer que não os novos donos não vêm controlar. Mas o mais importante é outra coisa: o CGS representa os accionistas da EDP e muitos, aflitos que estão, também querem vender aos chineses. O triângulo amoroso produziu esta aberração.
Para ser isto, o CGS da EDP devia ser extinto. Este órgão, criado para gerir o equilíbrio entre o Estado e privados, tornou-se numa loja de vendedores e vendidos. Paradoxalmente, o Conselho de Administração Executivo seria mais independente se o CGS fosse extinto e funções como as de auditoria e remunerações fossem transferidas.
António Mexia não é desta loja, ser convidado para um novo mandato é uma grande vitória sua, mas ele sai mais fraco: tem um Governo hostil, aceitou nomes na comissão executiva impostos pelos chineses e está apoiado em accionistas que estão de saída (BES,
Mello, BCP).
Voltemos às nomeações. Podíamos dizer que não está em causa o mérito pessoal de cada uma destas pessoas, mas está. Porque o mérito que está a ser recompensado não é o técnico ou sentido estratégico, é o da lealdade e trabalho político. É Catroga (ainda assim, o único aceitável) ter suado por Passos como "ministro sombra", é Teixeira Pinto ter feito a proposta de revisão constitucional, é Braga de Macedo ter feito uma estratégia para a internacionalização que foi triturada por Portas.
É curioso, mas
Miguel Relvas, tendo a fama de "apparatchik" que tem, está a fazer as coisas bem. Na RTP, manteve a administração de Guilherme Costa, que tem gente essencialmente próxima do PS. Já Passos reincide na fórmula tenebrosa da Caixa Geral de Depósitos, reforçando a dose: dois cavaquistas (Catroga e Rocha Vieira), dois passistas (Braga e Teixeira Pinto) e um CDS (Celeste Cardona, a mulher mais polivalente de Portugal, já foi ministra, banqueira e agora será conselheira na Energia).
Duas linhas para Ilídio Pinho: é um grande empresário, está ligado ao Oriente e não precisa deste cargo para nada. Precisam talvez as suas empresas. E é pouco recomendável ver metido nisto o accionista e membro dos órgãos da Fomentivest, onde trabalhava Passos Coelho. O próprio devia sabê-lo - e não aceitar.
Por esta lógica, ainda veremos Ângelo Correia ou José Luis Arnaut assomarem numa das próximas nomeações (a próxima é já a
Portugal Telecom). O problema é que, enquanto isso, milhões de portugueses estão a perder salários, empregos, a pagar mais impostos, mais pelas rendas ou pela saúde. Estas nomeações são uma provocação social. Porque enquanto muitos tratam da sua vida, alguns tratam da sua vidinha.As nomeações da EDP, como antes as da Caixa, são um mau sinal dentro da EDP e da Caixa, e são um mau sinal do País. Já não é descaramento, é descarrilamento. A indignação durará uns dias, depois passa, cai o pano sobre a nódoa. A nódoa fica. Quem é mesmo o macaquinho do chinês?

in http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=530251&pn=1

domingo, 8 de janeiro de 2012

Porque hoje é DOMINGO (8-01-2012): leituras & actualidade

EVANGELHO – Mt 2,1-12
Tinha Jesus nascido em Belém da Judeia,
nos dias do rei Herodes,
quando chegaram a Jerusalém uns Magos vindos do Oriente.
«Onde está – perguntaram eles –
o rei dos judeus que acaba de nascer?
Nós vimos a sua estrela no Oriente
e viemos adorá-l’O».
Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes ficou perturbado
e, com ele, toda a cidade de Jerusalém.
Reuniu todos os príncipes dos sacerdotes e escribas do povo
e perguntou-lhes onde devia nascer o Messias.
Eles responderam: «Em Belém da Judeia,
porque assim está escrito pelo profeta:
‘Tu, Belém, terra de Jusá,
não és de modo nenhum a menor
entre as principais cidades de Judá,
pois de ti sairá um chefe,
que será o Pastor de Israel, meu povo’».
Então Herodes mandou chamar secretamente os Magos
e pediu-lhes informações precisas
sobre o tempo em que lhes tinha aparecido a estrela.
Depois enviou-os a Belém e disse-lhes:
«Ide informar-vos cuidadosamente acerca do Menino;
e, quando O encontrardes, avisai-me,
para que também eu vá adorá-l’O».
Ouvido o rei, puseram-se a caminho.
E eis que a estrela que tinham visto no Oriente
seguia à sua frente
e parou sobre o lugar onde estava o Menino.
Ao ver a estrela, sentiram grande alegria.
Entraram na casa,
viram o Menino com Maria, sua Mãe,
e, prostrando-se diante d’Ele,
adoraram-n’O.
Depois, abrindo os seus tesouros,
ofereceram-Lhe presentes:
ouro, incenso e mirra.
E, avisados em sonhos
para não voltarem à presença de Herodes,
regressaram à sua terra por outro caminho.
AMBIENTE
O episódio da visita dos magos ao menino de Belém é um episódio simpático e terno que, ao longo dos séculos, tem provocado um impacto considerável nos sonhos e nas fantasias dos cristãos… No entanto, convém recordar que estamos ainda no âmbito do “Evangelho da Infância”; e que os factos narrados nesta secção não são a descrição exacta de acontecimentos históricos, mas uma catequese sobre Jesus e a sua missão… Por outras palavras: Mateus não está aqui interessado em apresentar uma reportagem jornalística que conte a visita oficial de três chefes de estado estrangeiros à gruta de Belém; mas está interessado em (recorrendo a símbolos e imagens bem expressivos para os primeiros cristãos) apresentar Jesus como o enviado de Deus Pai, que vem oferecer a salvação de Deus aos homens de toda a terra.
MENSAGEM
A análise dos vários detalhes do relato confirma que a preocupação do autor (Mateus) não é de tipo histórico, mas catequético.
Notemos, em primeiro lugar, a insistência de Mateus no facto de Jesus ter nascido em Belém de Judá (cf. vers. 1.5.6.7). Para entender esta insistência, temos de recordar que Belém era a terra natal do rei David e que era a Belém que estava ligada a família de David. Afirmar que Jesus nasceu em Belém é ligá-l’O a esses anúncios proféticos que falavam do Messias como o descendente de David que havia de nascer em Belém (cf. Mi 5,1.3; 2 Sm 5,2) e restaurar o reino ideal de seu pai. Com esta nota, Mateus quer aquietar aqueles que pensavam que Jesus tinha nascido em Nazaré e que viam nisso um obstáculo para o reconhecerem como o Messias libertador.
Notemos, em segundo lugar, a referência a uma estrela “especial” que apareceu no céu por esta altura e que conduziu os “magos” para Belém. A interpretação desta referência como histórica levou alguém a cálculos astronómicos complicados para concluir que, no ano 6 a.C., uma conjunção de planetas explicaria o fenómeno luminoso da estrela refulgente mencionada por Mateus; outros andaram à procura de um cometa que, por esta época, devia ter sulcado os céus do antigo Médio Oriente… Na realidade, é inútil procurar nos céus a estrela ou cometa em causa, pois Mateus não está a narrar factos históricos. Segundo a crença popular da época, o nascimento de uma personagem importante era acompanhado da aparição de uma nova estrela. Também a tradição judaica anunciava o Messias como a estrela que surge de Jacob (cf. Nm 24,17). Ora, é com estes elementos que a imaginação de Mateus, posta ao serviço da catequese, vai inventar a “estrela”. Mateus está, sobretudo, interessado em fornecer aos cristãos da sua comunidade argumentos seguros para rebater aqueles que negavam que Jesus era esse Messias esperado.
Temos ainda as figuras dos “magos”. A palavra grega “mágos”, usada por Mateus, abarca um vasto leque de significados e é aplicada a personagens muito diversas: mágicos, feiticeiros, charlatães, sacerdotes persas, propagandistas religiosos… Aqui, poderia designar astrólogos mesopotâmios, em contacto com o messianismo judaico. Seja como for, esses “magos” representam, na catequese de Mateus, esses povos estrangeiros de que falava a primeira leitura (cf. Is 60,1-6), que se põem a caminho de Jerusalém com as suas riquezas (ouro e incenso) para encontrar a luz salvadora de Deus que brilha sobre a cidade santa. Jesus é, na opinião de Mateus e da catequese da Igreja primitiva, essa “luz”.
Além de uma catequese sobre Jesus, este relato recolhe, de forma paradigmática, duas atitudes que se vão repetir ao longo de todo o Evangelho: o Povo de Israel rejeita Jesus, enquanto que os “magos” do oriente (que são pagãos) O adoram; Herodes e Jerusalém “ficam perturbados” diante da notícia do nascimento do menino e planeiam a sua morte, enquanto que os pagãos sentem uma grande alegria e reconhecem em Jesus o seu salvador.
Mateus anuncia, desta forma, que Jesus vai ser rejeitado pelo seu Povo; mas vai ser acolhido pelos pagãos, que entrarão a fazer parte do novo Povo de Deus. O itinerário seguido pelos “magos” reflecte a caminhada que os pagãos percorreram para encontrar Jesus: estão atentos aos sinais (estrela), percebem que Jesus é a luz que traz a salvação, põem-se decididamente a caminho para O encontrar, perguntam aos judeus – que conhecem as Escrituras – o que fazer, encontram Jesus e adoram-n’O como “o Senhor”. É muito possível que um grande número de pagano-cristãos da comunidade de Mateus descobrisse neste relato as etapas do seu próprio caminho em direcção a Jesus.
ACTUALIZAÇÃO
Considerar as seguintes questões:
• Em primeiro lugar, meditemos nas atitudes das várias personagens que Mateus nos apresenta em confronto com Jesus: os “magos”, Herodes, os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo… Diante de Jesus, o libertador enviado por Deus, estes distintos personagens assumem atitudes diversas, que vão desde a adoração (os “magos”), até à rejeição total (Herodes), passando pela indiferença (os sacerdotes e os escribas: nenhum deles se preocupou em ir ao encontro desse Messias que eles conheciam bem dos textos sagrados). Identificamo-nos com algum destes grupos? Não é fácil “conhecer as Escrituras”, como profissionais da religião e, depois, deixar que as propostas e os valores de Jesus nos passem ao lado?
• Os “magos” são apresentados como os “homens dos sinais”, que sabem ver na “estrela” o sinal da chegada da libertação… Somos pessoas atentas aos “sinais” – isto é, somos capazes de ler os acontecimentos da nossa história e da nossa vida à luz de Deus? Procuramos perceber nos “sinais” que aparecem no nosso caminho a vontade de Deus?
• Impressiona também, no relato de Mateus, a “desinstalação” dos “magos”: viram a “estrela”, deixaram tudo, arriscaram tudo e vieram procurar Jesus. Somos capazes da mesma atitude de desinstalação, ou estamos demasiado agarrados ao nosso sofá, ao nosso colchão especial, à nossa televisão, à nossa aparelhagem, ao nosso computador? Somos capazes de deixar tudo para responder aos apelos que Jesus nos faz através dos irmãos?
• Os “magos” representam os homens de todo o mundo que vão ao encontro de Cristo, que acolhem a proposta libertadora que Ele traz e que se prostram diante d’Ele. É a imagem da Igreja – essa família de irmãos, constituída por gente de muitas cores e raças, que aderem a Jesus e que O reconhecem como o seu Senhor?

FONTE: http://www.dehonianos.org/portal/liturgia_dominical_ver.asp?liturgiaid=341

sábado, 7 de janeiro de 2012

Segurança e insegurança de Mamôn

por ANSELMO BORGES

n DN de 07-01-2012

Talvez nunca como hoje, no meio de uma confusão sem medida nem fim à vista, se tenham utilizado tanto as palavras confiança e crédito, palavras que vêm do mundo religioso. Confiança vem de fides (fiar-se de, confiar, fé) e crédito, de credere (crédito, acreditar, crer, Credo). O que falta e faz falta: confiança e crédito. Mas confiar em quê e em quem? E quem tem crédito e concede crédito?
O pior mesmo é essa falta e a confusão. Ninguém sabe exactamente - saberá?- o que se passa. E, quando não se é capaz de equacionar os problemas, como encontrar a solução? No labirinto, pululam sentenças, palpites, comentários, aldrabices, ataques, adivinhações... Saímos do euro? O euro vai acabar? Uma Europa a duas velocidades? A Europa desmorona-se? E quando se dá o crescimento da economia? Ah!, e os BRIC... E a crise de um mundo pela primeira vez verdadeiramente um só mundo! E um capitalismo selvagem e louco!
Como se chegou aqui? Aqui, é a esfola. Surpreendentemente, mesmo Jorge Sampaio foi confessando, há dias, que sabia que o país estava com sérias dificuldades, mas, "que tivéssemos chegado a isto, tão dependentes de credores, nunca tinha pensado".
Afinal, ainda há pouco, havia dinheiro para mais uma auto-estrada de Lisboa ao Porto, um novo aeroporto, alta velocidade para Madrid... De repente, a esfola. Impostos, mais impostos, cortes, mais cortes. E não se pense que tenha terminado a procissão da austeridade.
É claro que se deve honrar os compromissos e pagar as dívidas. Mas, quando olho os números, fico aterrado: este ano são mais de nove mil milhões de euros para pagar juros. Agora, a soberania está com os credores. E esta mentira toda: resgatar um país, ajoelhando-o e paralisando-o com juros! E já se não fala em pessoas, mas em mercados. As pessoas terão desaparecido? Quem as apagou do mapa?
Culpados? Nós todos. As responsabilidades não são, porém, todas iguais. Mas quem se assume como responsável? Presidentes da República, governos, a banca, autarcas, corruptos, consumidores sôfregos, professores, jornalistas... Alguém conhece alguém que se confesse responsável?
Sobretudo, é preciso ir à raiz. E lá está a Bíblia na Primeira Carta a Timóteo: "Nada trouxemos ao mundo e nada poderemos levar dele. A raiz de todos os males é a ganância do dinheiro. Arrastados por ele, muitos se enredaram em muitas aflições." E Jesus - é para essas bandas que mora a Sabedoria, o Logos, a Razão e a Bondade - disse, no contexto de um escravo não poder ser pertença de dois senhores, que Deus e Dinheiro são totalmente incompatíveis: "Não podeis servir a Deus e a Dinheiro."
Para entender este passo, a começar pela tradução, é necessário perceber a linguagem. Significativamente, o Novo Testamento, para dinheiro, utiliza a palavra Mamôn, que só aparece na boca de Jesus e que provém do verbo hemin, com o significado de crer e aceitar confiadamente. Como explica o teólogo catalão José Ignacio González Faus, o dinheiro gera uma fé de tipo religioso. Daí a sua incompatibilidade com Deus. Aliás, Jesus usa a palavra sem artigo, como se fosse um nome próprio, de tal modo que alguns manuscritos escrevem-na precisamente com maiúscula: "Não podeis servir a Deus e a Dinheiro."
O problema reside, como explicou indirectamente J. M. Keynes, na sua Teoria geral do emprego, do juro e da moeda, na segurança. Os seres humanos têm medo do futuro e precisam de assegurá-lo. Tradicionalmente, essa missão estava confiada à religião. Agora, a segurança vem do dinheiro. De facto, o dinheiro abre todas as portas e compra tudo. Dá prestígio e é aquele meio que dá acesso a todos os meios - no limite, asseguraria a própria imortalidade. Ele é omnipotente como um Deus.
Por isso, González Faus diz que a legenda das notas de dólar (in God we trust) significa na realidade: in "this" God we trust ("neste" Deus, o Dinheiro, confiamos). Mas, de facto, o que deveria trazer-nos segurança trouxe-nos, como se vê, no quadro de um neoliberalismo à solta, uma insegurança global, que pode levar ao desastre.

A LIÇÃO IRLANDESA

"(...) Depois de três anos em recessão, a Irlanda veio à tona e espera em 2012 um aumento do PIB em 1,6%. Em entrevista à Renascença, o embaixador da Irlanda em Portugal aconselha o país a apostar no turismo, na exportação de produtos tradicionais e na educação.(...)"

Percorram-se os vídeos nos respectivos números do link http://vmais.rr.sapo.pt/default.aspx#acr até se encontrar aquele com esse - "A lição irlandesa"- nome. Clicar e aprenda-se/perceba-se/conheça-se/exija-se/faça-se

A propósito:
O que tem a Holanda que nós não temos
DN de 04 Janeiro 2012

A transferência da sede do Grupo Jerónimo Martins para a Holanda constitui uma verdadeira chamada de atenção para a realidade económica nacional, em termos de falta de competitividade fiscal. É compreensível a indignação daqueles que acusam o capital de ser apátrida, de procurar o máximo proveito, sem um pingo de preocupação pelos superiores interesses do País, num momento de verdadeira emergência nacional. O que mais choca é esse contraste entre o frio pragmatismo do mundo dos negócios, sempre à procura de nova vantagem competitiva adicional, e a onda de sacrifícios fundos que o ajustamento do Orçamento do Estado e dos fatores de produção impõem, e vão continuar a impor, a quem vive (ou viveu) exclusivamente do seu trabalho por conta de outrem.
O capitalismo tem as suas regras de funcionamento, os seus protagonistas e as suas molas propulsoras do investimento, e, através dele, do emprego e do crescimento económico. Não adianta muito chamar-lhe nomes. O que ajuda é compreender em que contexto se situa a economia de Portugal: por mais que a generalidade da população ainda não tenha interiorizado a situação, de facto, o mercado interno de Portugal tem o tamanho do continente europeu. É nesse espaço que se tem de promover a aproximação (para não dizer, a harmonização) fiscal, condição para criar regras menos desiguais em termos de competitividade empresarial.
Esse desiderato, que Merkel e Sarkozy erigem como prioridade para a governação económica da UE, não é de hoje. Há muitos anos que vem sendo posto na sua agenda política, sem êxito. Porque os países mais agressivos, com IRC mais baixo, não abrem mão da sua vantagem relativa. Harmonizar, seria, assim, sinónimo de redução generalizada dos impostos sobre as empresas. Esse caminho está vedado, por razões orçamentais, em Portugal, por vários anos. Quando Passos Coelho afirmou, em entrevista, querer baixar impostos, a partir de 2015, era nisto que ele estava a pensar.
A quase totalidade das 20 empresas cotadas em bolsa no PSI-20 está na mesma situação da Jerónimo Martins - naturalizada holandesa. Esse é mais um espelho implacável, que reflete a distância entre o que somos e o que gostaríamos de ser. E o que podemos agora fazer.

Alexandre Soares dos Santos não deixa de ter razão quando fala em "passividade", "sociedade civil", "avestruz", "exigir":
Presidente do grupo Jerónimo Martins
“Não é destituindo Governos sucessivamente que o país vai lá”
Jornal Público de 09.04.2011 - 10:09 Por Lusa
(...)
O “homem forte” do grupo que detém o Pingo Doce começou por fazer uma “análise” à situação “preocupante” de Portugal.
“O país vai mal”, afirmou e apresentou quatro motivos para a situação de Portugal: “inércia, incompetência, falta de sentido de Estado e passividade da sociedade civil”.
Para Alexandre Soares dos Santos, “a sociedade viu nascer uma crise política, social e financeira mas escondeu a cabeça na areia, como a avestruz”.
Esta “passividade” é sinal, explicou, de “que se tem vindo a perder a noção de ética e do comportamento social responsável”.
Alexandre Soares dos Santos afirmou que o “caminho” passa por “forçar quem de direito a apresentar soluções sérias” (...). No entanto, explicou, “também é tempo de exigir que os impostos cobrados sejam bem aplicados e exigir aos governos que cumpram aquilo que prometem”.
Sobre os partidos políticos, Alexandre Soares dos Santos, afirmou que estes “não representam o país” mas que a “culpa” é da sociedade civil “que não se faz ouvir”.
(...)